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terça-feira, 29 de setembro de 2026

A ARTE DE GOVERNAR CIDADES:

 


A ARTE DE GOVERNAR CIDADES:

 

Imagine uma cidade. Agora, imagine-a não como um amontoado de ruas, prédios e pessoas, mas como um organismo vivo — um corpo que respira, que sente, que cresce e que, quando mal cuidado, adoece. O gestor municipal é o coração desse organismo. Não aquele que bombeia sangue sozinho, mas aquele que coordena cada batida, que regula o fluxo, que sente quando algo não vai bem e age antes que a febre se espalhe.

Ser um bom gestor em administração municipal não é sobre ocupar uma cadeira ou assinar papéis. É sobre construir pontes — pontes entre o planejamento e a execução, entre o recurso público e a necessidade real, entre a promessa de campanha e a entrega concreta. É sobre entender que cada decisão, por menor que pareça, ecoa na vida de milhares de pessoas.

Os caminhos que levam um gestor municipal ao sucesso — e as armadilhas que podem transformar uma administração promissora em um retrato do fracasso.

 

O Que Nenhum Gestor Pode Deixar de Fazer:

Cerque-se de Competência, Não de Amizades. Sendo categórico: a primeira e mais importante decisão de um prefeito é escolher os profissionais mais competentes para compor seu governo. Os resultados de qualquer prefeitura dependem, fundamentalmente, das pessoas que nela trabalham.

O antigo modelo de "chefe" perdeu espaço para o líder. E o líder não se cerca de puxa-sacos ou parentes — ele se cerca de pessoas que sabem mais do que ele em suas respectivas áreas. "A confiança é a mãe dos grandes atos”. Mas confiança não significa complacência. Significa escolher com critério técnico, avaliar desempenhos e, quando necessário, corrigir rotas.

O bom gestor monta uma equipe técnica, proativa e competente. Avalia constantemente o desempenho de cada secretário e subordinados. E, por favor, nada de nepotismo — evite conflitos de interesse que possam abalar a imagem, gestão e reputação.

 

O gestor tem que liderar com Ética e sendo o Exemplo Vivo

"Liderar com ética e combater os desvios. Não basta falar sobre honestidade — é preciso praticá-la diariamente. Os líderes comandam pelo exemplo, não pelo discurso.

Um gestor que desvia recursos, que favorece amigos em licitações, que trata o dinheiro público como se fosse pessoal, está cavando a própria sepultura política. Mas mais do que isso: está traindo a confiança de cada cidadão que depositou nele a esperança de uma cidade melhor.

O que fazer para ser um bom gestor: Siga um código de ética e conduta para toda a prefeitura. Trabalhe de acordo com as regras, leis e regulamentos. Seja o primeiro a cumprir e o último a flexibilizar. A sociedade percebe quando a prefeitura está bem cuidada.

O gestor tem que estabelecer um Sistema de Governança — Não Governo por Instinto

Governar no improviso é a receita mais rápida para o desastre. O TCU recomenda que o gestor estabeleça um sistema de governança municipal para facilitar sua gestão. Isso significa usar mecanismos de liderança, estratégia e controle no dia a dia.

Não deixe de avaliar as ações que estão sendo executadas. Direcione os trabalhos diariamente e monitore tudo. Qualquer coisa que aconteça — positiva ou negativa — a responsabilidade é sua. "É o seu CPF em jogo", adverte o TCU.

O que o gestor deve fazer: Criar processos e formas de trabalho que facilitem o controle. Dê responsabilidades à sua equipe, cobre resultados e entregas no prazo. Lembre-se: você é o líder — está em suas mãos.

 

Planejar com Estratégia e Monitorar Resultados

Boas práticas na gestão municipal nascem a partir de problemas reais, com objetivos claros, metas definidas e público-alvo identificado. Elas são sustentadas por dados e diagnósticos consistentes. Não adianta querer resolver tudo de uma vez — é preciso priorizar.

Um orçamento feito sem diagnóstico, sem projeções realistas e sem compatibilidade com a capacidade efetiva de execução do município é uma receita para o fracasso. O planejamento deve estar integrado aos instrumentos formais — PPA, LDO e LOA — e não depender exclusivamente de uma liderança pontual.

O que fazer: Estabelecer um modelo de gestão estratégica aplicável à realidade do município. Defina indicadores claros, monitore resultados e ajuste rotas quando necessário. Inove — mas com responsabilidade, pragmatismo e visão de futuro.

 

Estude o Passado do município para não Repetir os Erros

A primeira coisa que o prefeito eleito deveria fazer é resgatar os três, quatro últimos julgamentos e pareceres que o TCE proferiu sobre o seu município, porque ali vai estar apontado todo e qualquer problema que ele deve estar atento.

É surpreendente como muitos gestores assumem o cargo sem fazer esse dever de casa básico. E depois reclamam da "herança maldita" — muitas vezes, uma herança que já havia sido documentada e apontada pelos tribunais de contas.

O que fazer: Antes de qualquer coisa, estude os relatórios e pareceres dos órgãos de controle sobre a situação do município. Entenda o que deu certo e, principalmente, o que deu errado. Aprenda com os erros dos outros — é mais barato e menos doloroso.

 

Fale a Verdade para a sociedade sobre as Finanças

Apresentar com clareza os dados sobre o caixa, endividamento, passivos herdados e margem de investimento é essencial para estabelecer confiança. O relatório não precisa ser excessivamente técnico, mas deve comunicar de forma honesta a realidade fiscal.

Muitos gestores cometem o erro de maquiar os números ou prometer o que não podem cumprir. A transparência não é apenas uma obrigação legal — é uma ferramenta de legitimidade.

O que fazer: Divulgue relatórios periódicos sobre a execução das políticas públicas. Seja transparente sobre os desafios e as limitações. A população prefere uma verdade dura a uma mentira confortável.

O mais importante dê Voz à Comunidade

Uma boa governança municipal abre espaço para a participação dos atores locais. Envolva a comunidade em diagnósticos sobre as condições da cidade por meio de audiências públicas, enquetes e fóruns de discussão.

A participação ativa de servidores, parceiros e da comunidade contribui para a legitimidade e a sustentabilidade das ações implementadas. Quando as pessoas se sentem ouvidas, elas se tornam aliadas — não apenas espectadoras.

O que fazer: Promova audiências públicas, diálogo com o legislativo e definição das prioridades com participação social. Crie canais acessíveis para que o cidadão possa contribuir com ideias e críticas.

 

Invista em Controle Interno e Transparência

A estruturação adequada do Sistema de Controle Interno é um dos principais pilares para garantir uma gestão pública eficiente. O controle interno não é um inimigo — é um aliado que previne falhas procedimentais, legais e operacionais.

Além disso, assegure o respeito às normas de transparência na administração. Digitalize processos, desburocratize, use tecnologia a favor da eficiência.

O que fazer: Fortaleça e prestigie a atuação do controle interno. Implemente sistemas de inteligência para análise de dados e tomada de decisões. Capacite servidores em tecnologias modernas de gestão.

 

Pense no Desenvolvimento Sustentável

Uma cidade em pleno desenvolvimento não é apenas aquela que cresce de maneira econômica. É aquela que cresce com qualidade de vida, com responsabilidade social e preservação ambiental.

O desenvolvimento sustentável envolve acesso à água potável e saneamento básico, coleta seletiva, eficiência energética, qualidade na educação e saúde, investimentos públicos responsáveis e políticas de habitação.

O que fazer: Integre sustentabilidade e economia verde à agenda municipal. Busque cooperação intermunicipal para gerar escala e eficiência. Pense além do mandato — construa uma cidade para as próximas gerações.

 

Capacite-se e Capacite sua Equipe

A administração pública é dinâmica. Leis mudam, tecnologias surgem, demandas se transformam. Um gestor que para de aprender está, na verdade, começando a perder.

O que fazer: Promova a capacitação continuada dos servidores. Participe de treinamentos e seminários. Busque referências em outras cidades e aprenda com experiências de sucesso.

 

O Que Nenhum Gestor Deve Fazer:

Não Trate a Administração Pública como uma Empresa Privada e sua

Prefeitos sofrem por falta de noção de administração pública, o gestor público precisa separar o modo de administrar dos setores privado e público.

Na iniciativa privada, o dono pode tomar decisões rápidas, contratar e demitir com flexibilidade, focar no lucro. Na administração pública, há regras que obrigatoriamente devem ser seguidas. Ignorá-las é pedir para responder nas esferas cível e criminal.

O que não fazer: Não tente administrar a prefeitura como se fosse sua empresa. Não ignore leis, regulamentos e princípios constitucionais. O dinheiro público não é seu — é de todos.

 

Não Elabore Orçamento sem Diagnóstico Realista

Orçamento sem estratégia produz promessas; planejamento produz resultados. O problema surge quando o orçamento é elaborado sem diagnóstico, sem projeções realistas e sem compatibilidade com a capacidade efetiva de execução do município.

Outro fator que compromete a eficiência é a elevada rigidez orçamentária. Se você compromete quase todo o orçamento com despesas fixas, sobra pouco ou nada para investimentos.

O que não fazer: Não prometa o que não pode cumprir. Não elabore um orçamento baseado em esperanças ou em festas, e sim em dados concretos. Não deixe de priorizar despesas.

 

Não Ignore a "Herança" que Recebeu

Muitos prefeitos reclamam da "herança maldita" deixada pelo antecessor. Mas tão ruim quanto o déficit é o superávit mal administrado, porque isso significa que você tinha recursos e, certamente, deixou de atender necessidades daquele município porque administrou com prioridades mal estabelecidas.

O que não fazer: Não use a herança como desculpa para a inação. Não ignore os problemas herdados, enfrente-os com transparência e plano de ação. Não caia na armadilha de reclamar sem apresentar soluções.

 

Não Projete Obras sem Projetos Bem Feitos

"Rever cuidadosamente os projetos antes de promover licitações. Projetos mal elaborados geram problemas de execução, aditivos contratuais e produtos caros e de má qualidade".

Obras superfaturadas, paralisadas ou mal executadas são um dos maiores escândalos da administração pública brasileira. E na maioria das vezes, começam com um projeto mal feito.

O que não fazer: Não corra com licitações sem projetos bem elaborados. Não aceite propostas irrealistas. Não ignore a necessidade de fiscalização rigorosa das obras.

Não Esqueça da Transparência

A falta de transparência é um erro que mina a confiança da população e atrai a atenção indesejada dos órgãos de controle.

O que não fazer: Não oculte informações. Não dificulte o acesso do cidadão aos dados públicos. Não trate a transparência como uma obrigação chata, trate-a como um valor.

 

Não Subestime a Gestão de Pessoas

Servidores desmotivados, mal treinados ou mal geridos produzem serviços públicos de baixa qualidade. O gestor que ignora a gestão de pessoas está condenando sua administração ao fracasso.

O que não fazer: Não trate servidores como números. Não ignore a necessidade de capacitação. Não deixe que o assédio moral ou a falta de reconhecimento se instalem na prefeitura.

 

Não Deixe a Política Partidária Sobrepujar o Interesse Público

A política é inerente à administração pública. Mas quando o interesse partidário ou pessoal se sobrepõe ao interesse público, a gestão se corrompe.

O que não fazer: Não use a máquina pública para beneficiar aliados ou prejudicar opositores. Não transforme a prefeitura em extensão do partido. Lembre-se: você foi eleito para servir a todos, não apenas aos que votaram em você.

 

Não Deixe de Cuidar da Previdência e dos Passivos

"Zelar pela previdência pública" é um dos deveres do gestor. Ignorar os passivos previdenciários é criar um problema gigantesco para o futuro — um problema que, mais cedo ou mais tarde, explodirá nas mãos de alguém.

O que não fazer: Não adie o enfrentamento dos problemas previdenciários. Não finja que os passivos não existem. Não transfira o problema para o próximo gestor.

 

Não Descumpra Prazos e Limites Legais

O cumprimento de prazos e limites, formalidades na aplicação dos recursos públicos, são fundamentais. O descumprimento pode levar a sanções, multas e até à inelegibilidade.

O que não fazer: Não ignore prazos legais. Não ultrapasse limites de gastos com pessoal. Não deixe de prestar contas no prazo.

Não se isole

O prefeito não governa sozinho. O gestor que se isola, que não dialoga com a Câmara Municipal, com outros níveis de governo, com a sociedade civil, está construindo uma administração frágil.

O que não fazer: Não trate a Câmara como inimiga. Não ignore os outros entes federativos. Não feche os ouvidos para a sociedade.

 

O Perfil do Líder Municipal do Futuro

O que faz um gestor ser lembrado como alguém que transformou uma cidade? Não é apenas construir obras ou equilibrar contas — embora isso seja importante. É deixar um legado.

O legado de um bom gestor municipal se constrói com:

Visão de longo prazo. O gestor que pensa apenas no próximo ano está fadado ao improviso. O grande gestor pensa na cidade daqui a 10, 20, 50 anos.

Capacidade de articular. Nenhum prefeito faz tudo sozinho. É preciso articular com o governo estadual, com o governo federal, com a iniciativa privada, com o terceiro setor, com a comunidade.

A administração pública é dura. Haverá críticas, obstáculos, frustrações. O gestor que desiste no primeiro tropeço não está pronto para continuar com o cargo.

O bom gestor sabe que não sabe tudo. Ele ouve, aprende, corrige rotas. Ele não tem medo de admitir erros.

No final das contas, a gestão municipal é sobre amor — amor pelo lugar onde as pessoas vivem, trabalham, criam seus filhos, envelhecem. O gestor que não sente isso, não dura.

 

A Cidade que queremos

Ser um bom gestor em administração municipal é, acima de tudo, um ato de responsabilidade. Responsabilidade com o dinheiro público, com as pessoas, com o futuro. É entender que cada real gasto, cada lei aprovada, cada obra iniciada, tem impacto direto na vida de alguém.

O TCU resume bem: Estabeleça esta capacidade organizacional da governança como um todo. Prefeitos têm que estar com a consciência de que têm uma série de regras que obrigatoriamente devem ser seguidas.

Mas mais do que regras, mais do que técnicas, mais do que planejamento, ser um bom gestor é servir. É colocar o interesse público acima de tudo. É construir, dia após dia, a cidade que queremos para nós e para nossos filhos.

E você, gestor, está pronto para esse desafio?

 

Esta matéria foi elaborada com base em orientações do Tribunal de Contas da União, Tribunais de Contas Estaduais, manuais de boas práticas e experiências de gestores que transformaram realidades. O conhecimento está aí. A decisão de aplicá-lo — ou não — é sua.

 

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