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terça-feira, 3 de março de 2026

CANALIZAÇÃO QUE VIROU PESCOÇO E O DESAFIO URGENTE DE REESTRUTURAR A DRENAGEM URBANA

 



CANALIZAÇÃO QUE VIROU PESCOÇO E O DESAFIO URGENTE DE REESTRUTURAR A DRENAGEM URBANA



Avenida Santa Rita: do sonho urbano ao desafio estrutural

Nos anos oitenta, em reunião com o então prefeito, discutia-se o projeto de canalização do Córrego Santa Rita, ao longo da Avenida Santa Rita. Entre os presentes, uma advertência técnica foi feita com clareza: caso a canalização fosse executada com tubos de latão, a estrutura estaria, ao longo do tempo, sujeita à corrosão tanto na parte superior quanto na inferior. A umidade constante, os detritos transportados pela água e a pressão do solo provocariam ferrugem, perda de resistência estrutural e deformações. O resultado previsível seria o colapso progressivo da tubulação e o comprometimento do escoamento.

Outro participante, no entanto, destacou o ganho estético da obra. A proposta previa uma avenida moderna, com gramado e arborização implantados sobre a canalização. Nos primeiros anos, o resultado visual foi positivo: organização paisagística, aparência urbana renovada e a sensação de avanço estrutural. Para muitos, tratava-se de um símbolo de progresso.

Com o passar do tempo, porém, confirmou-se o alerta inicial. O problema não se limitou ao material empregado na canalização. O crescimento urbano ocorreu sem planejamento hídrico compatível. Novas edificações surgiram ao longo da avenida e em seu entorno, enquanto o solo natural, antes permeável, foi gradativamente substituído por asfalto e concreto. A impermeabilização excessiva reduziu drasticamente a capacidade de infiltração da água das chuvas.

Sem áreas adequadas de absorção, o volume pluvial passou a escoar de forma acelerada para o sistema de drenagem, aumentando a pressão sobre uma tubulação já fragilizada. As enchentes tornaram-se mais frequentes e intensas. O que antes era um curso d’água natural, com flexibilidade para acomodar variações de vazão, transformou-se em um sistema fechado, limitado e vulnerável a obstruções.

O acúmulo de resíduos sólidos, sedimentos e materiais carregados pelas enxurradas agravou o cenário. A deterioração estrutural associada ao aumento da vazão criou condições propícias para alagamentos, erosões subterrâneas e riscos à estabilidade da própria avenida.

A situação ganhou nova complexidade com o planejamento e a edificação do Santuário. A construção agregou valor espiritual e arquitetônico à região, mas também alterou significativamente a dinâmica do escoamento superficial. O terreno apresenta declividade acentuada e, com a urbanização e asfaltamento, perdeu grande parte de sua capacidade natural de infiltração, intensificando o volume de água direcionado à parte baixa da avenida.

Diante desse contexto, torna-se indispensável um debate técnico e institucional amplo, envolvendo poder público, engenheiros, ambientalistas, comerciantes, moradores e lideranças comunitárias. Não se trata apenas de uma intervenção de infraestrutura, mas de uma decisão estratégica que envolve segurança urbana, sustentabilidade ambiental, preservação do patrimônio público e qualidade de vida da população.

A Avenida Santa Rita simboliza hoje um dilema clássico do planejamento urbano: conciliar estética, crescimento e funcionalidade com responsabilidade técnica e visão de longo prazo.

Em áreas de declive acentuado, a água pluvial já apresenta, por natureza, maior velocidade de escoamento superficial. A ação gravitacional intensifica-se nesses terrenos inclinados, acelerando a descida da lâmina d’água. Quando o solo é impermeabilizado por asfalto e concreto, o coeficiente de escoamento aumenta significativamente. Em vez de infiltrar-se gradualmente — como ocorreria em condições naturais — a água escoa quase de forma imediata, concentrando-se nos pontos mais baixos da topografia.

No caso da Avenida Santa Rita, esse comportamento hidrológico é determinante. Todo o fluxo proveniente das áreas mais elevadas converge para a porção inferior da via, exatamente onde já existe um estreitamento da seção de vazão. Esse ponto funciona como um verdadeiro gargalo hidráulico.

A área de contribuição é extensa. Recebe águas oriundas de bairros como Cassialar, Patrimônio, Jardim do Sol, Alvorada e de toda a região do Santuário,  além das contribuições descendentes dos bairros Planalto, Santa Rita, São Francisco, Exposição e Urutau. Trata-se de uma bacia urbana ampla, com elevada taxa de impermeabilização e declividade expressiva.

Toda essa massa hídrica desce impulsionada pela gravidade e encontra um obstáculo físico: a limitação da galeria existente, dimensionada para uma realidade urbana muito distinta da atual. Quando o volume afluente ultrapassa a capacidade de escoamento projetada, o desfecho é inevitável: transbordamentos, alagamentos recorrentes e enchentes cada vez mais intensas.

O problema, portanto, não é pontual. Trata-se de um fenômeno sistêmico, resultante da interação entre múltiplos fatores: a antiga canalização do Córrego Santa Rita, o desgaste estrutural acumulado ao longo de décadas, o crescimento urbano sem atualização compatível da drenagem pluvial, a impermeabilização progressiva do solo e a própria configuração topográfica da região.

Próximo à rodoviária ocorre um agravante técnico relevante: a confluência do córrego da Avenida dos Produtores com o Córrego Santa Rita. Pouco abaixo, nas imediações da farmácia e do posto de combustíveis, soma-se ainda a contribuição do córrego proveniente da região do São Gabriel. Em termos hidráulicos, três sistemas de drenagem distintos convergem praticamente na mesma faixa de escoamento — que é única e limitada.

Essa confluência múltipla exigiria, sob parâmetros contemporâneos de engenharia hidráulica, uma seção transversal significativamente mais ampla e com transições suaves de direção. Entretanto, o canal existente, além de estreito, apresenta uma mudança brusca de direção em formato de “L” nas proximidades da farmácia. Tal geometria provoca perda de carga, aumento da turbulência e redução da eficiência do escoamento. Em eventos de precipitação intensa, esse ponto atua como obstáculo adicional, comprometendo justamente a fluidez necessária ao sistema.

Foram implantadas bacias de contenção nas proximidades do Poliesportivo, com o objetivo de amortecer o pico de vazão. Do ponto de vista conceitual, trata-se de medida adequada. Contudo, os resultados práticos foram limitados.

A razão técnica é clara: a retenção a montante não está compatível com a restrição hidráulica a jusante. O canal de saída da Avenida Santa Rita permanece subdimensionado. Assim, mesmo com o retardo temporário promovido pelas bacias, quando a precipitação é intensa e prolongada, o volume acumulado supera rapidamente a capacidade de armazenamento e escoa com força para o ponto crítico.

Forma-se, então, lâmina d’água na parte inferior da avenida, ocorre retorno pelas bocas de lobo e extravasamento do canal. Não se trata de falha isolada das bacias, mas de um sistema desequilibrado, onde a capacidade global de drenagem não foi recalibrada de forma integrada.

Sob a ótica da engenharia hidráulica moderna, intervenções pontuais não resolvem um problema estrutural dessa magnitude. A alternativa tecnicamente consistente passa por revisão completa do sistema: redimensionamento da seção de vazão, reconfiguração das confluências, eliminação de ângulos abruptos e, sobretudo, reavaliação da possibilidade de reabertura planejada do Córrego Santa Rita, com canalização aberta e dimensionada com base em estudos hidrológicos atualizados.

Os índices pluviométricos atuais, marcados por eventos mais intensos e concentrados, exigem critérios de projeto distintos daqueles utilizados décadas atrás. Persistir com parâmetros antigos diante de uma nova realidade climática e urbana significa manter um sistema permanentemente em risco.

O diagnóstico é técnico e objetivo: enquanto a capacidade de saída for menor do que o volume convergente da bacia urbana, o gargalo hidráulico continuará produzindo alagamentos recorrentes. A solução, portanto, deve ser sistêmica, integrada e fundamentada em engenharia contemporânea.

Esse diagnóstico reforça a necessidade de uma solução estrutural mais abrangente. Enquanto o canal permanecer subdimensionado e mantiver o estreitamento associado ao desvio angular acentuado, qualquer medida paliativa terá efeito apenas parcial. A readequação do trecho de saída, com ampliação da seção hidráulica, correção geométrica do traçado e compatibilização das vazões dos três cursos d’água que ali convergem, torna-se elemento central dentro de um plano técnico mais amplo.

Sem essa intervenção no ponto de estrangulamento, novas bacias, novos dispositivos ou ampliações pontuais tenderão a produzir apenas alívio temporário, mas não eliminarão o risco recorrente de enchentes naquela região.

É fundamental compreender que cada nova construção altera o comportamento natural das águas. A cidade deve ser planejada como um sistema integrado, no qual cada intervenção urbana influencia o equilíbrio geral.

A reabertura do Córrego Santa Rita e a reestruturação completa do sistema de drenagem representam investimento elevado. Exigem projetos executivos detalhados, estudos de impacto ambiental e urbano, levantamentos topográficos e hidrológicos precisos, além de licitações estruturadas e cronograma técnico rigoroso. Não se trata de intervenção simples nem de baixo custo. É uma obra estruturante, que altera a dinâmica urbana e precisa ser conduzida com responsabilidade técnica e administrativa.

Entretanto, para iniciar a correção de algo que há anos foi fechado e coberto, é necessário começar pelo ponto inicial do sistema hídrico. Antes mesmo da abertura total do trecho canalizado, pode-se atuar preventivamente nas áreas a montante. Um passo estratégico é a manutenção permanente e sistemática do córrego da Olaria, localizado nos fundos da COHAB. Esse curso d’água exerce papel importante na drenagem complementar da bacia e, se estiver obstruído por sedimentos, vegetação excessiva ou resíduos sólidos, compromete ainda mais o escoamento geral.

A limpeza periódica, realizada em todas as épocas do ano e não apenas de forma emergencial antes do período chuvoso, é medida básica, porém essencial. A remoção do assoreamento aumenta a seção hidráulica útil do canal natural, melhora a vazão e reduz o risco de transbordamento precoce.

Além da limpeza, em determinados trechos pode ser estudada a retificação controlada do alinhamento do córrego, sempre com respaldo técnico e ambiental. Curvas muito fechadas reduzem a eficiência do escoamento e favorecem a deposição de sedimentos. Ao corrigir suavemente o traçado, ampliando o raio de curvatura onde for tecnicamente viável, aumenta-se a fluidez da água proveniente do Santa Rita e das demais contribuições.

Ao melhorar a eficiência hidráulica do córrego da Olaria, cria-se condição mais favorável para o recebimento das águas que descem da região do Santa Rita. Em termos sistêmicos, trata-se de fortalecer o escoamento a montante para aliviar a pressão a jusante.

Portanto, mesmo antes da grande obra estrutural de reabertura integral do Córrego Santa Rita, já é plenamente possível iniciar um processo técnico de reorganização do sistema de drenagem. Pequenas intervenções, desde que bem planejadas, contínuas e integradas a um plano diretor de drenagem urbana, podem produzir efeitos progressivos e preparar o caminho para etapas futuras de maior porte.

Essa lógica de atuação gradual permite que o município avance dentro de suas limitações orçamentárias, sem se omitir diante do problema. Em vez de aguardar recursos para uma solução completa e imediata, que pode demandar anos, começa-se pelo que é tecnicamente viável e financeiramente executável. Organiza-se o sistema natural ainda existente, fortalece-se a capacidade de escoamento onde já há curso aberto e cria-se uma base técnica sólida para intervenções estruturais mais amplas no futuro.

Cada trecho recuperado representa ganho acumulativo no equilíbrio hídrico da cidade. A drenagem urbana funciona como um sistema interligado: melhorar um ponto estratégico reduz a sobrecarga em outro. Por isso, a atuação preventiva e permanente tem valor estrutural, e não apenas paliativo.

Nesse contexto, a Avenida Brasil merece atenção específica. Como o córrego naquele trecho já se encontra aberto, há uma oportunidade técnica clara de otimização. A limpeza constante é medida essencial. A retirada periódica de sedimentos, vegetação invasiva e resíduos sólidos mantém a seção hidráulica útil do canal, evitando a redução da capacidade de vazão durante períodos de chuva intensa.

Além da manutenção, um pequeno realinhamento do leito, em pontos estratégicos, pode melhorar significativamente o escoamento das águas. Curvaturas muito acentuadas, estreitamentos localizados ou irregularidades no fundo do canal provocam perda de eficiência hidráulica, gerando pontos de retenção e aumento do nível d’água a montante. Com ajustes pontuais no traçado, respeitando critérios de estabilidade das margens e controle de erosão, é possível aumentar a fluidez sem necessidade de grandes intervenções estruturais.

Também pode ser avaliada a regularização do fundo do canal, com a remoção de desníveis abruptos que criam zonas de turbulência. Um fluxo mais uniforme reduz o risco de transbordamento e melhora a capacidade de transporte das águas que seguem em direção às áreas mais críticas.

Importante destacar que essas medidas, embora em menor escala, precisam estar inseridas em planejamento técnico coordenado. Não se trata apenas de “limpar” ou “endireitar”, mas de compreender a dinâmica hidráulica de toda a microbacia. A eficiência de um trecho depende da compatibilização com os demais pontos do sistema.

Ao fortalecer o funcionamento da Avenida Brasil e manter organizado o córrego da Olaria, cria-se rede mais eficiente antes mesmo da grande reabertura do Santa Rita. Essa preparação progressiva reduz impactos imediatos, aumenta a segurança urbana e demonstra compromisso administrativo com soluções estruturais.

A cidade, nesse sentido, não precisa esperar pela obra completa para começar a mudar sua realidade. Pode iniciar com intervenções técnicas contínuas, estrategicamente posicionadas, que, somadas ao longo do tempo, construirão as bases para uma reestruturação hídrica mais ampla e definitiva.

Após o trecho da Avenida Brasil, onde o córrego já se encontra aberto e pode receber melhorias de manutenção e alinhamento, inicia-se a área da Praça, que também possui pequeno segmento com o curso d’água visível. No entanto, esse trecho aberto não possui capacidade hidráulica suficiente para comportar o volume de água que desce das partes superiores da cidade.

É justamente nessa área que se encontra um dos pontos mais críticos de todo o sistema: ali ocorre a mudança de direção em formato de “L” e também o encontro dos três cursos d’água — o proveniente do São Gabriel, o córrego da Avenida dos Produtores e o próprio Santa Rita. Trata-se de confluência hidráulica associada a desvio angular acentuado, combinação tecnicamente desfavorável em situações de alta vazão.

Quando dois cursos d’água se encontram, a seção de escoamento precisa ser dimensionada para suportar a soma das vazões de pico. Se, além disso, existe mudança brusca de direção, ocorre perda de carga significativa, aumento da turbulência e redução da eficiência do fluxo. A água desacelera momentaneamente, eleva o nível a montante e cria condição propícia ao transbordamento.

No caso específico da Praça, o pequeno trecho aberto funciona quase como janela insuficiente dentro de sistema pressionado por grande volume hídrico. A água que vem da Avenida Santa Rita, somada à contribuição do córrego da Avenida dos Produtores, encontra ali espaço limitado, com geometria inadequada para situações de chuva intensa. O resultado é a elevação rápida da lâmina d’água e o consequente extravasamento para as áreas mais baixas.

Além disso, se o canal nesse ponto não possui largura, profundidade e raio de curvatura adequados, forma-se verdadeiro pontos de estrangulamento hidráulico. Mesmo que os trechos anteriores estejam relativamente organizados, o gargalo na Praça compromete o desempenho de todo o sistema.

Do ponto de vista técnico, esse local exige estudo específico de readequação geométrica. Pode ser avaliada a ampliação da seção transversal, a suavização do ângulo do “L”, a criação de curva com raio mais amplo ou até mesmo a implantação de estrutura de transição hidráulica que reduza a perda de energia e aumente a fluidez do escoamento.

Também é recomendável verificar o desnível entre os leitos que se encontram nesse ponto. Diferenças mal compensadas podem gerar refluxo parcial ou turbulência excessiva, agravando ainda mais o problema durante chuvas de maior intensidade.

Portanto, a Praça não é apenas trecho intermediário do percurso das águas; ela representa nó estrutural dentro da rede de drenagem. Enquanto esse ponto não for tecnicamente reavaliado e redimensionado, as intervenções realizadas a montante terão efeito limitado.

Isso reforça a necessidade de diagnóstico integrado de toda a bacia de contribuição, no qual cada confluência, cada mudança de direção e cada estreitamento sejam analisados sob critérios de engenharia hidráulica moderna. Somente com essa leitura sistêmica será possível transformar pontos críticos como o da Praça em áreas estabilizadas dentro de sistema de drenagem mais eficiente e compatível com a realidade atual da cidade.

Já dentro da Praça, uma das áreas mais afetadas pelas enchentes, poderia iniciar-se, de forma estratégica, a reabertura gradual do córrego. Esse ponto representa o coração do problema hidráulico e, ao mesmo tempo, pode tornar-se o ponto inicial da solução estrutural.

A reabertura pode começar no trecho que vem da Avenida Brasil, seguindo em direção ao Poliesportivo, mantendo sempre como princípio técnico o melhor alinhamento possível do leito. O alinhamento adequado reduz perdas de carga, diminui turbulências e aumenta a eficiência do escoamento. Quanto mais uniforme e contínuo for o traçado, maior será a capacidade de vazão, especialmente em períodos de precipitação intensa.

No ponto de encontro dos dois córregos — o da Avenida dos Produtores e o Santa Rita — pode ser implantado pequeno “bojo” hidráulico, tecnicamente configurado como área de alargamento ou bacia de transição. Essa ampliação localizada da seção permitirá melhor captação e acomodação das vazões somadas. Em vez de a água colidir diretamente e seguir sob pressão para trecho estreito, terá espaço maior para redistribuição de energia.

Esse bojo funcionará como câmara de equalização: ao ampliar momentaneamente a seção transversal, reduz-se a velocidade instantânea do fluxo, diminui-se a turbulência da confluência e organiza-se o direcionamento das águas rumo ao canal de saída. Não se trata de retenção permanente, mas de permitir que a água circule com mais estabilidade antes de seguir a jusante.

Além disso, essa área de transição pode ser projetada com fundo regularizado, taludes protegidos e dissipadores de energia estrategicamente posicionados. Com isso, evitam-se erosões localizadas e reduz-se o impacto hidráulico causado pelo encontro simultâneo das vazões.

Outro aspecto importante é a compatibilização do nível do leito dos dois córregos no ponto de confluência. Caso existam desníveis inadequados, podem ocorrer refluxos parciais ou formação de redemoinhos que prejudicam o escoamento eficiente. A correção dessas cotas altimétricas é fundamental para que o fluxo ocorra de maneira contínua, estável e ordenada.

A partir desse ponto reestruturado na Praça, o canal pode seguir em direção ao Poliesportivo com seção devidamente dimensionada para comportar o volume total das microbacias que ali convergem. O objetivo não é apenas abrir o córrego, mas redimensioná-lo conforme a realidade urbana atual, marcada por maior impermeabilização do solo e por eventos de chuva mais intensos e concentrados.

Essa intervenção inicial dentro da Praça teria dupla função: solucionar o ponto mais crítico do sistema e servir como etapa piloto de um projeto maior de reabertura progressiva. Demonstraria, na prática, que é possível reorganizar o fluxo hídrico com base em critérios técnicos modernos, reduzindo de forma significativa o risco de enchentes na parte mais baixa da Avenida Santa Rita.

Assim, a Praça deixaria de ser apenas o local onde o problema se manifesta com maior intensidade e passaria a constituir o ponto estratégico de reorganização hidráulica da cidade — o início concreto de uma solução estruturada e planejada para toda a bacia de contribuição.

O mais importante é compreender que, cedo ou tarde, esse serviço precisará ser executado. A necessidade estrutural não desaparecerá com o tempo; ao contrário, tende a se agravar à medida que a cidade cresce, o solo se impermeabiliza ainda mais e os eventos pluviométricos se tornam mais intensos. Justamente por isso, o momento de iniciar é agora, ainda que de forma parcial e progressiva.

Mesmo que a reabertura comece com trecho reduzido — partindo da Avenida Brasil e seguindo apenas até a antiga Pituchinha — já representará avanço significativo. Historicamente, essa área sempre esteve entre as mais críticas em relação às enchentes. Ali se concentram os efeitos do gargalo hidráulico e da soma das vazões provenientes das partes mais altas da cidade. Intervir nesse ponto significa atuar diretamente na região de maior vulnerabilidade.

Essa primeira etapa funcionará como núcleo inicial de projeto mais amplo. Ao abrir esse trecho e redimensioná-lo adequadamente, aumenta-se a capacidade local de vazão, reduz-se a pressão sobre as galerias existentes e criam-se melhores condições para o escoamento durante chuvas intensas. Com o tempo, conforme houver disponibilidade orçamentária e continuidade administrativa, os demais trechos poderão ser executados gradualmente, sempre com base em planejamento técnico consolidado.

Adiar indefinidamente a solução estrutural implica aceitar risco crescente. Mantido o sistema nas condições atuais, a tendência é de enchentes mais frequentes e mais severas. A cada evento extremo, ampliam-se os prejuízos materiais, os riscos à integridade das edificações e o desgaste emocional da população afetada.

Há também consequência social relevante. Caso os alagamentos se intensifiquem ao longo dos anos, moradores situados nas margens poderão ser forçados a desocupar suas propriedades por razões de segurança. Não por escolha voluntária, mas pela recorrência de enchentes que tornem inviável a permanência. Isso acarretaria impactos urbanos, econômicos e humanos significativos.

Iniciar a reabertura, ainda que em escala reduzida, não é apenas decisão técnica, mas medida preventiva de proteção urbana. Trata-se de agir antes que o cenário evolua para condição de emergência permanente.

A engenharia contemporânea demonstra que problemas estruturais complexos podem ser enfrentados por etapas, desde que exista diretriz clara e planejamento consistente. Começar de forma gradual não significa limitar a visão, mas estabelecer base concreta dentro de estratégia maior.

Em última análise, a questão não é se a obra deve ser realizada, mas quando. Quanto mais se posterga, maior tende a ser o custo financeiro, estrutural e social no futuro.

Por isso, uma gestão responsável pode iniciar o processo de reabertura do córrego desde já, de maneira planejada e progressiva. A inércia administrativa diante de problema estrutural já diagnosticado apenas transfere custos ampliados para o futuro. Agir agora significa reduzir riscos acumulados, minimizar prejuízos recorrentes e demonstrar compromisso com a segurança urbana.

A decisão de iniciar não exige, necessariamente, a execução imediata de toda a extensão da obra. Exige, sim, a formalização de projeto técnico consistente, com estudos preliminares, definição de prioridades, cronograma por etapas e estimativa clara de custos. A partir desse planejamento estruturado, torna-se possível buscar fontes de financiamento e organizar o avanço gradual da intervenção.

Iniciar agora, ainda que com trecho inicial da reabertura, representa não apenas decisão técnica, mas escolha estratégica de gestão. Com planejamento adequado, respaldo jurídico, diálogo com a comunidade e responsabilidade fiscal, é viável construir caminho consistente para que a obra avance de forma contínua, reduza riscos estruturais e preserve a estabilidade urbana e patrimonial da região afetada.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 1 de março de 2026

“NÃO É EXTENSÃO — É PROPÓSITO”

 

“NÃO É EXTENSÃO — É PROPÓSITO”

Dizem que meus textos são longos — e pode ser verdade. Ainda assim, cada um deles nasce com um propósito definido e segue uma estrutura consciente: têm começo, meio e fim. Não são escritos ao acaso, mas construídos com a intenção de provocar reflexão, estimular o pensamento crítico e oferecer uma leitura que vá além da superfície das palavras. Em todos, procuro sustentar um julgamento construtivo, fundamentado no desejo de explicar, questionar, alertar e orientar, sempre buscando contribuir de forma lúcida e responsável para a compreensão dos fatos e das realidades que nos cercam.

Meus textos carregam a intenção de iluminar caminhos, de ampliar perspectivas e de colaborar para que decisões sejam tomadas com mais consciência. Eles procuram mostrar que muitas situações difíceis poderiam ser moderadas, prevenidas ou até evitadas se fossem analisadas com antecedência, sensatez e senso coletivo. Ao expor ideias e argumentos, busco não apenas relatar, mas também esclarecer, trazendo à tona reflexões que possam servir como instrumento de aprendizado e transformação.

Escrevo com o compromisso de que cada linha tenha utilidade e significado. Acredito que a palavra, quando usada com responsabilidade, pode orientar atitudes, despertar consciências e evitar danos que, muitas vezes, surgem da falta de diálogo, de análise ou de visão crítica. Por isso, meus textos não se limitam a apontar problemas: eles procuram oferecer entendimento, sugerir caminhos e incentivar soluções.

Assim, o que alguns veem apenas como extensão, eu vejo como profundidade. O que pode parecer excesso, para mim é cuidado; o que pode soar detalhado demais é, na verdade, a tentativa sincera de não deixar lacunas na compreensão. Porque escrever, para mim, não é apenas expressar ideias — é assumir o compromisso de contribuir para que situações que poderiam ser arquitetadas, articuladas ou ambicionadas sem reflexão sejam repensadas antes mesmo de nascerem, seja por gestores do passado, do presente ou, quem sabe, do futuro.

Não sou dono da verdade, nem me coloco como quem sabe mais do que os outros. Não sei tudo — e nem é esse o meu objetivo. O que busco é entender o que realmente importa, o que é essencial, o que tem força suficiente para provocar mudança real na vida da nossa comunidade. Quando surgem reclamações, críticas e revoltas, não faço de conta que não existem. Eu escuto, observo e procuro, dentro da lei e dos caminhos corretos, meios concretos de transformar indignação em solução. Porque reclamar é um direito legítimo. Mas agir é uma responsabilidade de quem deseja ver a realidade mudar.

Há algo que precisa ser dito com clareza: o povo tem poder. Muito mais poder do que imagina. A lei garante instrumentos, assegura direitos, abre portas para fiscalizar, denunciar, cobrar e propor. Porém, esse poder só ganha vida quando deixa de ser isolado e passa a ser coletivo. Quando a consciência se une à coragem. Quando a vontade individual se transforma em ação conjunta.

Uma pessoa fala.
Algumas pessoas ecoam.
Um grupo mobiliza.
Uma comunidade organizada transforma destinos.

Se todos compreendessem a força que existe na união — nas associações, nos conselhos, nas audiências públicas, nas cobranças formais e nas ações legais — muitas situações que hoje parecem eternas deixariam de existir. Não por milagre, mas por organização. Não por sorte, mas por participação.

O verdadeiro obstáculo não é a falta de voz.

É a falta de união com propósito.

Não sou perfeito e não domino todos os assuntos. Ainda assim, acredito que cada cidadão tem o dever de buscar conhecimento suficiente para não ser enganado, esmagado, manipulado ou silenciado.

Informação é proteção.

Consciência é defesa.

Participação é poder.

Sozinho, sou apenas um som no meio do ruído.

Juntos, somos direção, força e mudança.

Porque transformação não começa com quem sabe tudo. Começa com quem se recusa a ficar parado — e decide caminhar junto.

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

EXISTE UM CAMINHO REAL PARA UM CARNAVAL MELHOR EM CÁSSIA MG — E ELE DEPENDE DE TODOS NÓS

 

EXISTE UM CAMINHO REAL PARA UM CARNAVAL MELHOR EM CÁSSIA MG — E ELE DEPENDE DE TODOS NÓS

 


Depois de tantas mensagens, comentários, opiniões e lembranças compartilhadas, uma certeza ficou evidente: o povo quer ver o Carnaval vivo novamente. Não apenas como uma festa maluca e cheia de confusões, mas como um verdadeiro encontro de alegria, tradição e convivência. Diante disso, surge uma visão concreta e possível de como pode funcionar um modelo de Carnaval em Cássia — um formato mais humano, participativo, seguro e também mais econômico.

Essa sugestão não nasce de crítica vazia, mas da escuta popular. O objetivo não é apontar erros do passado ou mesmo do presente, e sim demonstrar que existe solução para o futuro. O caminho não está em eventos cada vez mais caros e pesados, e sim em um modelo inteligente, cultural e bem organizado, que valorize o que sempre foi a essência do nosso Carnaval: o povo nas ruas, os blocos desfilando, as famílias participando e o samba que contagia e faz sorrir.

O Carnaval deve ser gratuito e realizado em circuito de rua organizado, com início no começo da noite e encerramento por volta da meia-noite, no máximo até 1h da madrugada. Esse detalhe muda tudo. Com horário definido, a festa ganha ritmo, disciplina e segurança. Não haveria necessidade de manter praças fechadas ou cercadas, pois o próprio fluxo natural se encerraria com o término dos desfiles. Ao final do cortejo, o público se dispersa tranquilamente, como acontecia antigamente, evitando aglomerações prolongadas e reduzindo riscos.

Esse formato diminui custos e melhora a segurança ao mesmo tempo. Com duração equilibrada e programação contínua, reduz-se a necessidade de estruturas excessivas, como grande quantidade de banheiros químicos ou montagens complexas. Eventos longos e estáticos exigem mais estrutura justamente porque as pessoas permanecem concentradas por horas no mesmo local. Já uma programação dinâmica, com início, meio e fim bem definidos, permite que o público participe, aproveite e retorne para casa com tranquilidade.

O mesmo princípio vale para estruturas caras e exageradas. Palcos gigantes, equipamentos enormes e montagens complexas elevam despesas sem necessariamente melhorar a qualidade cultural do evento. Um modelo mais leve, baseado em blocos em movimento e acompanhamento musical itinerante, utiliza estrutura funcional, reduz custos logísticos e melhora a circulação das pessoas, evitando pontos críticos de concentração.

Além disso, quanto menor o tempo de permanência enlevada do público, menor também a probabilidade de conflitos e desordens. A própria dinâmica do desfile passa a funcionar como mecanismo natural de organização: o cortejo passa, o público acompanha, celebra e segue. Essa rotatividade diminui a pressão sobre segurança, limpeza e atendimento, permitindo que esses serviços atuem de forma preventiva e eficiente, e não apenas reativa.

Na prática, isso representa um Carnaval mais seguro, mais leve, mais organizado e mais econômico — sem perder a alegria, a animação e o brilho cultural que tornam a festa especial. Quando o planejamento e a simplicidade caminham juntos, o resultado é melhor para todos: para quem participa, para quem trabalha e para toda a cidade.

Outro ponto fundamental é o protagonismo dos blocos carnavalescos. São eles que realmente dão vida ao Carnaval, fazem o público vibrar, cantar e se emocionar. Os blocos tradicionais devem ser fortalecidos, enquanto novos grupos devem ser incentivados a surgir. Com cadastro oficial, ordem de desfile e horários definidos, garante-se fluidez, evita-se atrasos e mantém-se a animação constante, sem intervalos que esfriem o clima.

Em vez da contratação de bandas com cachês elevados, que consomem grande parte do orçamento público em poucas horas de apresentação, esses recursos poderiam ser redistribuídos de forma mais estratégica e culturalmente produtiva. Direcionar esse investimento para blocos tradicionais e também para os novos grupos que vêm surgindo fortaleceria a base do Carnaval, incentivando a criatividade local, valorizando artistas da própria comunidade e ampliando a participação popular. Com esse modelo, o dinheiro deixaria de se concentrar em atrações pontuais e passaria a impulsionar toda a estrutura festiva, promovendo crescimento coletivo, identidade cultural e sustentabilidade financeira para a festa.

Como também para fortalecer ainda mais esses blocos, a sugestão inclui mobilização comunitária. Comerciantes, apoiadores e moradores podem colaborar voluntariamente com instrumentos, tecidos, adereços, apoio logístico ou patrocínios locais. Pequenas contribuições, somadas, tornam-se grandes conquistas. Assim, os blocos podem investir em figurinos, percussão, estandartes e identidade visual, elevando o nível artístico sem depender exclusivamente de recursos públicos.

Vou citar de onde vem o dinheiro usado pela Prefeitura para realizar o Carnaval e não surge de um fundo separado exclusivo para festas. Ele vem do orçamento geral do município, que é formado por várias receitas públicas. Em termos técnicos de finanças públicas municipais, as principais fontes são: Impostos municipais. Repasses dos governos estadual e federal. E Taxas e arrecadações locais. Que são previstos na Lei Orçamentária Anual (LOA) aprovada pela Câmara Municipal. Ou seja: o gasto não é improvisado — ele precisa estar autorizado no orçamento antes, então se o gasto é exagerado excessivamente em determinado setor e sem a fiscalização devida, a Câmara tem uma grande porcentagem de culpa em todos erros que se possa cometer a gestão, pois o orçamento anual aprovado pela Câmara Municipal define quanto cada área pode gastar. Se a Prefeitura decide gastar menos com festividades, existem três cenários possíveis a destinar a Verba livre. Se o dinheiro estiver em uma rubrica de cultura, turismo ou eventos sem vinculação obrigatória, ele pode ser remanejado para outras áreas — como: saúde, infraestrutura, assistência social, educação complementar, manutenção urbana. Esse remanejamento geralmente exige: decreto do prefeito ou autorização legislativa (dependendo do valor e da lei orçamentária).

Verba vinculada, alguns recursos públicos vêm com destino obrigatório por lei (ex.: parte da educação e da saúde) então esse recurso não pode ser usado em festividades, como o carnaval; é somente um exemplo, ou seja, se uma verba foi transferida por convênio específico para evento cultural, ela não pode simplesmente ser usada para outra finalidade. E porque citei essa parte onde fala de verba, pois um gestor de bom entendimento faria uma festividade simples com menos custos, e o não gasto da verba ou sobra, em pleno acordo envia se a verba as áreas mais necessitadas, como a saúde por exemplo.

Continuando com a sugestão:

Quando a própria comunidade participa da construção da festa, também passa a acompanhar de perto sua organização, fortalecendo a transparência e dificultando desperdícios ou gastos injustificados. Modelos simples e participativos reduzem brechas para despesas infladas, ou desviadas e aumentam a confiança popular.

As escolas também poderiam ter um papel essencial e fundamental. Em oficinas de música, dança, percussão e confecção de fantasias ao longo do ano, envolveriam crianças e jovens, despertando interesse pela cultura carnavalesca e garantindo continuidade para as próximas gerações. Dessa forma, o Carnaval deixa de ser apenas um evento anual e passa a ser um movimento cultural permanente que educa, integra e fortalece a identidade local.

Empresas locais podem apoiar blocos específicos, fortalecendo simultaneamente a festa e o comércio. Quanto maior a participação da sociedade, menor a necessidade de altos gastos públicos. Trata-se de um sistema colaborativo em que todos ajudam e todos se beneficiam.

Para assegurar organização e confiança, a coordenação poderia contar com uma comissão formada por representantes da comunidade, blocos, artistas, comerciantes, vereadores e poder público. Decisões coletivas aumentam a fiscalização social, evitam erros e constroem um evento mais justo, representativo e aceito pela população.

É importante entender: não se trata de voltar ao passado exatamente como era, pois o tempo segue adiante. O que se busca é resgatar o espírito que fazia o Carnaval ser esperado o ano inteiro — o sentimento de pertencimento, união e alegria verdadeira.

Carnaval bom não é o mais caro.
É o mais vivido.
O mais seguro.
O mais participativo.
O mais transparente.
O mais verdadeiro.

Essa sugestão mostra que existe, sim, um caminho possível, viável e realista. Um caminho que depende de pouco dinheiro e mais de união. Quando a comunidade participa, acredita e contribui, a festa deixa de ser apenas um evento e volta a ser aquilo que sempre deveria ter sido: uma celebração autêntica do povo para o povo.

Não se deve esquecer do Carnaval quando os batuques silenciam. É justamente agora, depois da festa, que nasce a oportunidade de pensar, planejar e construir um evento ainda melhor para o próximo ano. O momento de buscar melhorias é no presente, enquanto ainda existe disposição e memória do que pode evoluir. Assim evitamos o esquecimento e também críticas futuras que poderiam ter sido transformadas em atitudes. A sugestão foi dada; agora é tempo de união, compromisso e trabalho coletivo para seguir em frente e fazer do próximo Carnaval uma celebração ainda mais digna do seu povo.

Porque onde existe vontade, existe caminho.
Onde existe união, existe solução.
E onde existe um povo unido, sempre existirá Carnaval.

sábado, 21 de fevereiro de 2026

Educar é Construir: Reflexões Profundas Sobre a Verdadeira Formação dos Filhos

 


Educar é Construir: Reflexões Profundas Sobre a Verdadeira Formação dos Filhos 

Criar um filho não é apenas atender desejos, oferecer conforto ou evitar frustrações. Educar é uma tarefa complexa, contínua e profundamente transformadora — tanto para a criança quanto para quem a orienta. Em uma época marcada pelo corre-corre, pelo consumo e pela permissividade disfarçada de carinho, muitos adultos acabam confundindo amor com concessão ilimitada. O resultado, muitas vezes, são jovens inseguros, impacientes, dependentes e despreparados para a vida real.

A seguir, reflexões essenciais sobre atitudes comuns na educação dos filhos — algumas bem-intencionadas, mas equivocadas — e caminhos mais sólidos para formar seres humanos responsáveis, equilibrados e conscientes.


Dar Tudo Não É Amar — É Privar de Aprender

Há pais que se orgulham de nunca negar nada aos filhos. Tudo o que pedem é concedido imediatamente. Palavras inadequadas são tratadas como graça, atitudes erradas são vistas como charme, e limites simplesmente não existem. Contudo, a ausência de limites não forma crianças felizes; forma crianças desorientadas.

Orientar é parte essencial do amor. Assim como ninguém deixa para escolher se vai estudar apenas depois de adulto, também não faz sentido adiar toda formação moral, espiritual ou de valores. A infância é exatamente o tempo de ensinar, apresentar princípios, cultivar virtudes e orientar escolhas. Quem não educa cedo, terá muito mais dificuldade depois.


Responsabilidade se Aprende Praticando

Muitos adultos fazem pelos filhos aquilo que eles já têm plena capacidade de fazer sozinhos: recolher objetos, guardar brinquedos, arrumar o próprio espaço. Ao agir assim, impedem que desenvolvam senso de responsabilidade.

Se uma criança consegue espalhar, ela também consegue organizar. O aprendizado vem justamente da prática. Até animais são treinados a aprender rotinas e limites; com seres humanos, que possuem inteligência e consciência, essa capacidade é ainda maior. Educar exige paciência, repetição e constância — mas os resultados aparecem.


O Ambiente Familiar Ensina Mais do Que Palavras

Os filhos observam tudo. O modo como os pais se tratam, se respeitam ou se desrespeitam, marca profundamente a formação emocional deles. Discussões agressivas, gritos e confrontos constantes criam insegurança e medo.

Casais maduros entendem que conflitos existem, mas sabem resolvê-los com discrição e respeito. Não é necessário elevar a voz para quem está perto; gritar costuma ser sinal de distância emocional, não física. Quando há proximidade verdadeira, até o silêncio comunica entendimento. Demonstrar afeto, diálogo calmo e respeito mútuo ensina muito mais do que qualquer discurso educativo.


Excesso de Coisas, Falta de Valor

Vivemos em uma cultura de abundância material, mas nem sempre de gratidão. Crianças que recebem brinquedos em excesso tendem a não valorizar nenhum. Quando tudo é fácil e substituível, nada parece importante.

Em gerações passadas, poucos objetos eram suficientes para longos anos de diversão e imaginação. A criatividade nascia justamente da simplicidade: inventar brincadeiras, criar jogos, improvisar brinquedos. Hoje, muitos objetos já vêm prontos, automatizados, exigindo pouca participação ativa. O resultado é entretenimento passivo e menor desenvolvimento criativo.

Valor nasce da escassez equilibrada, não do excesso.


Dinheiro Demais Também Pode Prejudicar

Dar quantias elevadas sem critério ou esforço correspondente pode ensinar a criança a associar dinheiro com direito automático, e não com responsabilidade. Recursos financeiros devem ser apresentados como fruto de trabalho, disciplina e planejamento.

Pequenas quantias, ligadas a tarefas, metas ou conquistas, ajudam a desenvolver noções de mérito, economia e administração. A criança aprende que tudo tem valor e que esforço e recompensa caminham juntos.


Cair Faz Parte do Crescimento

Proteger demais é impedir o aprendizado natural da vida. Pequenas quedas, frustrações e dificuldades ensinam lições que nenhuma explicação teórica substitui. Ao enfrentar desafios, a criança desenvolve coragem, resiliência e autonomia.

Na natureza, muitos animais aprendem desde cedo a se levantar rapidamente após cair — é questão de sobrevivência. Com os seres humanos, o princípio é semelhante: aprender a levantar é tão importante quanto aprender a caminhar.

Dizer “não” às vezes dói mais em quem fala do que em quem ouve, mas limites firmes e serenos são fundamentais para a formação do caráter.


Unidade Entre os Pais é Essencial

Quando um responsável estabelece uma regra e o outro a contradiz diante da criança, a autoridade se dissolve. O filho passa a manipular a situação, escolhendo sempre quem diz “sim”.

Mesmo que haja discordância, o ideal é sustentar a decisão naquele momento e conversar depois, em particular. A coerência entre os adultos transmite segurança e clareza para a criança.


Deveres Domésticos Formam Caráter

Participar das tarefas da casa não é castigo; é formação. Arrumar a cama, organizar o quarto, ajudar na limpeza ou colaborar com pequenas atividades ensina disciplina, cooperação e senso de pertencimento.

Crianças que crescem acreditando que alguém sempre fará tudo por elas tendem a se tornar adultos dependentes e pouco preparados para a vida prática. Responsabilidade não surge de repente na vida adulta — ela é construída desde cedo.


Nem Sempre o Filho Tem Razão

Alguns pais defendem os filhos automaticamente, mesmo quando estão errados. Se a criança tira nota baixa, a culpa é do professor; se se comporta mal, a culpa é dos colegas. Essa postura impede que o jovem desenvolva senso crítico e responsabilidade pelos próprios atos.

Amar também significa corrigir. Reconhecer erros, aceitar consequências e aprender com falhas são passos indispensáveis para o amadurecimento.


Presença Vale Mais Que Presentes

Nada substitui o tempo de qualidade. Crianças precisam de atenção real, escuta sincera, orientação próxima e afeto constante. A ausência emocional — mesmo quando há presença física — gera carência e insegurança.

Amor verdadeiro não é apenas carinho; é compromisso. É estar presente, orientar, corrigir, apoiar e caminhar junto.


Pais e Educadores: Parceiros na Missão de Formar

Educar é uma missão compartilhada entre família e escola. Professores participam da formação, mas não substituem a base que vem do lar. Ambos erram, ambos aprendem, ambos crescem.

Quando adultos reconhecem falhas e pedem desculpas, ensinam humildade e humanidade. Nenhum pai ou mãe precisa ser perfeito — precisa apenas ser verdadeiro, consciente de suas limitações e disposto a melhorar continuamente.


O Uso Excessivo de Celular e a Responsabilidade dos Pais

Um tema impossível de ignorar na formação dos filhos hoje é a relação deles com as telas, especialmente com o celular. O uso sem limites, sem supervisão e sem orientação pode gerar consequências sérias: dificuldade de concentração, irritabilidade, ansiedade, isolamento social, dependência digital, prejuízo no rendimento escolar e até alterações no sono e no desenvolvimento emocional. Muitos jovens passam horas imersos em conteúdos vazios, comparações irreais e estímulos constantes que enfraquecem a paciência, a disciplina e a capacidade de lidar com a vida real.

É preciso reconhecer um ponto essencial: antes de qualquer independência financeira, quem fornece o aparelho, a internet e as condições de uso são os pais ou responsáveis. Portanto, ainda que não seja por má intenção, permitir acesso ilimitado equivale a autorizar silenciosamente esse excesso. A criança ou adolescente não tem maturidade natural para se autorregular nesse ambiente — essa é justamente a função educativa do adulto.

Responsabilidade não significa culpa absoluta, mas consciência do papel formador. Assim como se controla alimentação, horários e amizades, também é necessário orientar o uso da tecnologia. Estabelecer limites, horários, conteúdos permitidos e momentos sem tela não é rigidez; é cuidado. Quando há ausência de direção, o que deveria ser ferramenta vira domínio.

Educar também é saber dizer quando basta. Porque liberdade sem orientação não forma autonomia — forma dependência.


Celular nas Mãos dos Filhos: Responsabilidade Direta dos Adultos

Outro ponto indispensável nessa reflexão é o uso exagerado de celular por crianças e adolescentes. Não se trata apenas de discutir o tempo de tela, mas de reconhecer quem colocou esse recurso nas mãos deles. Antes de qualquer jovem ter renda própria, quem compra o aparelho, paga a internet, autoriza aplicativos e permite o uso são os pais ou responsáveis. Portanto, não é coerente tratar o problema como se fosse apenas culpa do filho. A responsabilidade é, sim, dos adultos que concederam o acesso.

Quando um menor recebe um celular, ele não ganha somente um objeto — recebe uma porta aberta para conteúdo, influências, riscos e estímulos para os quais muitas vezes ainda não tem maturidade emocional ou psicológica. Se esse acesso não vier acompanhado de limites claros, acompanhamento constante e orientação firme, o que poderia ser ferramenta de aprendizado pode se tornar fonte de prejuízos: dependência digital, perda de foco, alterações de humor, isolamento social e exposição a ambientes nocivos.

É importante deixar claro: reconhecer essa responsabilidade não é acusar famílias, mas lembrar que educar implica assumir as consequências das decisões tomadas. Se o adulto entrega, ele também deve supervisionar. Se permite, deve orientar. Se financia, precisa estabelecer regras. Não se pode simplesmente conceder liberdade total e depois se eximir dos resultados.

Pais e responsáveis não devem ser descartados dessa equação — eles são parte central dela. A formação de um filho sempre passa pelas escolhas de quem o cria. Por isso, dar um celular não é apenas um ato de presente; é um ato de responsabilidade contínua. Quando essa responsabilidade é assumida com consciência, a tecnologia deixa de ser ameaça e passa a ser instrumento útil. Quando não é, os prejuízos recaem sobre quem ainda não tinha maturidade para lidar sozinho com aquilo que recebeu.


Conclusão

Criar filhos não é uma tarefa simples nem rápida; é um processo diário de construção de valores, hábitos e caráter. Exige firmeza, amor, coerência, presença e sabedoria. Educar não é facilitar todos os caminhos, mas preparar para caminhar sozinho. Não é evitar toda dor, mas ensinar a superá-la. Não é dar tudo, mas mostrar o valor de cada coisa.

Quando pais e responsáveis assumem essa missão com seriedade e afeto, contribuem não apenas para o futuro de seus filhos, mas para o futuro de toda a sociedade.


Sobre as Críticas: Entre a Discordância Construtiva e a Rejeição Sem Reflexão

Toda reflexão que propõe limites, responsabilidade e mudança de postura inevitavelmente desperta reações diversas. Alguns leitores concordarão, outros discordarão, e haverá ainda aqueles que questionarão a eficácia ou até julgarão severas as ideias apresentadas. Isso é natural. Quando se fala de educação de filhos, toca-se em valores pessoais, experiências de vida e convicções profundas. Por isso, a divergência não só é esperada como também pode ser saudável.

A crítica, quando nasce da intenção sincera de compreender, analisar e aprimorar o debate, é sempre bem-vinda. Questionamentos feitos com respeito ajudam a ampliar a visão, corrigir excessos e aperfeiçoar argumentos. São esses diálogos que fazem qualquer reflexão amadurecer e se tornar mais equilibrada.

Entretanto, existe outro tipo de crítica: aquela feita sem interesse real de entender, motivada apenas por resistência, orgulho ou defesa automática de hábitos já estabelecidos. Muitas vezes, quem reage dessa forma não está debatendo ideias, mas protegendo a própria consciência de uma mudança que exigiria esforço. Há casos em que a rejeição vem justamente de quem adota uma postura permissiva, permitindo tudo, aprovando tudo e deixando o filho sem direção — como se educar fosse apenas assistir à vida do jovem à distância, sem interferir.

Educar não é abandonar à própria sorte. Liberdade sem orientação não é cuidado; é descuido disfarçado. Por isso, críticas são válidas e até necessárias, desde que venham acompanhadas de reflexão honesta. Questionar para construir é virtude. Criticar para desqualificar, sem disposição para pensar, é apenas resistência.

No fim, o mais importante não é agradar a todos, mas provocar consciência. Porque toda sociedade melhora quando mais adultos assumem, com coragem e lucidez, o verdadeiro papel de formar — e não apenas assistir — a próxima geração.





 

 

 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

DO MELHOR CARNAVAL DA REGIÃO AO GORO DAS ALTAS HORAS

 

DO MELHOR CARNAVAL DA REGIÃO AO GORO DAS ALTAS HORAS

 


Tempos que se foram — e bons mesmos. Houve uma época em que o Carnaval de Cássia era reconhecido como o melhor de todo o sul mineiro entre as cinquenta e quatro cidades da regional. Não faz tanto tempo assim; parece até que ainda ecoa no ar o som dos tamborins e das marchinhas. Esperávamos o ano inteiro, numa aflição alegre, contando os dias para chegar fevereiro. E havia algo curioso: sentíamos gosto até de sair de Rio de Janeiro — a capital mundial do carnaval — para vivenciar o que, para nós, era o verdadeiro reinado da folia regional. Era sentimento profundo, coisa de alma mesmo, daqueles que não se explica, só se vive.

Havia foliões que passavam o ano juntando seus tico ticos lá em São Paulo só para garantir a viagem e não perder o festejo. Muitos vinham especialmente para desfilar nos blocos tradicionais — Cartolas, Marujos, Adis Abafa, Índios e tantos outros — que desciam animados pela Avenida Luciano Batista até a praça Barão de Cambuí e na  famosa subidinha em frente à Casas Pernambucanas. Ali, apenas as lendárias cordas de bacalhau separavam o público dos desfilantes. Sobre passarelas de mateira improvisadas, cada participante exibia seu samba no pé, seu batuque, sua fantasia e sua alegria, como se fosse artista de escola grande.

Participei desse carnaval desde os seis anos de idade até por volta de dois mil e dois. Já não era mais exatamente o mesmo, é verdade, mas ainda dava para se alegrar sem muita baderna ou confusão. Depois de dois mil e quatro, porém, a mudança veio como vento torto: arrancaram o aglomerado de árvores que sombreava a praça e levantaram palanques para bandas que inventaram um carnaval que nunca existiu por aqui. Com elas chegaram a fumaça que foi se apoderando do ar limpo e inocente dos foliões, além de todo tipo de ondas pesadas chegou junto, onde os pais, os mais equilibrados e a disciplina não dão conta  de equilibrar o ambiente de tanto loucos que surgem em cada carnaval. Os ruídos estranhos e um tipo de agitação que não combina com a inocência dos foliões tradicionais.

Surge então a pergunta que ecoa na consciência: que pai ou mãe responsável leva seus filhos para um ambiente onde a alegria genuína é substituída por um ar carregado e por comportamentos desvairados? Carnaval de verdade — aquele de corpo e alma — é feito de blocos, marchinhas, samba, frevo, axé, maracatu, serpentina e confete. É arlequim sorrindo, é fantasia simples, é música que abraça. O carnaval mineiro, em sua essência apropriada, sempre foi desfile de blocos, batuque ritmado e grandes bailes de salão onde a música contagiava sem precisar de exageros.

Nos últimos anos, entretanto, tornou-se visível a redução no número de foliões. A praça antes cheia de vida, energia e tradição deu lugar a espaços vazios e a um sentimento coletivo de frustração. Muitos desejam apenas enfeitar, cantar e brincar — alimentar a alma com melodias carnavalescas —, mas já não encontram o mesmo ambiente para isso.

Toda modificação feita sob o argumento de melhoria nem sempre melhora. Às vezes, ao contrário, contribui para um cenário de caos e desilusão. A contratação de bandas caras eleva gastos municipais com estruturas, funcionários e banheiros, sem garantia de retorno real. E junto com a despesa vem aquilo que não se controla fácil: excessos, confusões e situações que a arrecadação de barracas jamais compensa. Quando há contrafação ou números mal explicados, a impressão é de que os olhos públicos recebem bofeteadas cobertas por um manto de picumã — visível para o povo, invisível para quem deveria fiscalizar.

Antigamente, a concentração dos blocos ocorria na praça do antigo Fórum, ponto simbólico de encontro, planejamento e risadas. Dali se via, de longe, o sorriso estampado em cada folião esperando sua vez de descer. Aquilo não era só logística; era parte essencial da experiência cultural cassiense. Era ali que nasciam histórias, amizades e memórias que duravam décadas.

Claro, tudo tem seu jeito, e ninguém ignora que o tempo não volta. Mas é impossível não notar que as gerações anteriores a dois mil pareciam carregar algo especial: um espírito coletivo em que o legado principal era a alegria compartilhada. Hoje, muitas vezes, o que se vê é ilusão barulhenta, gente alucinada, alcoolizada, perdida em excessos que nada têm a ver com tradição. Pergunta-se: para onde caminha essa massa de bizarros cegos que cobra direitos sem saber sequer se os possui?

Para reconstruir um carnaval duradouro, é preciso observar o que realmente funciona. Bandas nem sempre garantem animação; muita gente fica encostada com latinha na mão, imóvel, ou soltando fumaça ao ar, enquanto a música toca. Já quando um bloco desce a rua, surge o harmônico sorriso coletivo. O público assiste, vibra, assim que termina o desfile os pais pega os filhos pelas mãos e volta para casa contente, comentando cada detalhe.

Os que permanecem depois, em geral, são os que exigem vigilância policial e atenção redobrada dos pais, receosos de que a noite termine mal e o filho se lambuze como porco em chiqueiro de barro.

Quanto às conduções musicais, urge resgatar a essência do carnaval cassiense — do jeito que o mineiro aprecia. Em tempos em que muitas letras são depreciativas, machistas ou violentas, cresce o anseio popular por marchinhas, sambas e canções que preservem identidade e respeito.

Bandas que chegam descaracterizando ritmos e estilos acabam alterando o caráter original dos blocos, tornando-os irreconhecíveis, distantes de sua natureza inicial.

É preciso compreender que o sucesso de qualquer festa depende, antes de tudo, da presença e da adesão sincera das pessoas. Quando a população não concorda com os rumos tomados, o sensato é ouvir, ajustar, corrigir e, se necessário, retornar ao que antes satisfazia a todos. Para isso, é indispensável escutar quem mantém acesa a chama dessa tradição: os blocos e os foliões.

Sem os blocos, o Carnaval é morto. Eles são o coração pulsante, a biografia viva e a garantia de continuidade dessa manifestação cultural cassiense. Onde há bloco descendo a rua, há memória, há identidade e há povo. E enquanto houver povo disposto a sorrir ao som de um tamborim, sempre existirá esperança de que o verdadeiro carnaval — aquele de alegria limpa e alma leve — renasça outra vez.