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quarta-feira, 13 de maio de 2026

QUANDO ATÉ O DETERGENTE VIRA GUERRA IDEOLÓGICA: O BRASIL DA PÓS-VERDADE

 

QUANDO ATÉ O DETERGENTE VIRA GUERRA IDEOLÓGICA: O BRASIL DA PÓS-VERDADE


 

O que pensar de um país onde um simples detergente deixa de ser visto apenas como item de limpeza doméstica e passa a ocupar espaço no debate político, virando símbolo ideológico e combustível para disputas culturais? Aquilo que deveria permanecer restrito a uma discussão técnica sobre controle sanitário acabou arrastando o Brasil, mais uma vez, para um ambiente de polarização exagerada e emocional. E talvez o mais alarmante não seja o caso em si, mas o retrato que ele faz do cenário social, político e psicológico de parte da população brasileira.

Tudo teve início quando a Agência Nacional de Vigilância Sanitária apontou possíveis riscos de contaminação microbiológica em alguns lotes produzidos pela empresa YPÊ. Como acontece em qualquer sistema sério de fiscalização sanitária, o órgão adotou medidas preventivas, entre elas o recolhimento de produtos, a interrupção temporária da fabricação e alertas de precaução aos consumidores. Mais tarde, parte dessas determinações acabou sendo suspensa provisoriamente enquanto os recursos apresentados pela empresa continuam sendo avaliados na esfera judicial.

Até esse ponto, tratava-se apenas de um procedimento técnico, algo relativamente normal dentro das atribuições de órgãos responsáveis pela fiscalização sanitária. No entanto, em poucas horas, o assunto saiu do campo racional da saúde pública e mergulhou em uma onda de radicalização ideológica e reações emocionais exageradas.

Nas redes sociais, começaram a aparecer vídeos de pessoas lavando louça diante das câmeras como se estivessem participando de um ato político em defesa do país. Houve ainda quem utilizasse o produto em transmissões ao vivo numa tentativa de transformar o episódio em manifestação “patriótica”. Criadores de conteúdo passaram a apresentar recomendações sanitárias como se fossem provas de perseguição política, enquanto figuras públicas e grupos ideológicos aproveitaram a situação para fortalecer discursos conspiratórios. Ao mesmo tempo, milhares de usuários passaram a incentivar a compra dos produtos investigados como uma espécie de demonstração de fidelidade política.

O Brasil, que nos últimos anos já presenciou episódios marcados por comportamentos coletivos extremos — como pessoas realizando atos simbólicos em frente a quartéis, difundindo crenças fantasiosas e compartilhando teorias sem qualquer base concreta — agora vê cidadãos transformando um simples produto de limpeza em instrumento de disputa política contra uma suposta ameaça invisível. Embora muitas dessas atitudes pareçam apenas caricatas ou absurdas, o problema vai além do ridículo: existe um risco social real quando parte da população abandona completamente a análise racional dos fatos.

A discussão jamais esteve centrada no detergente em si. O ponto mais grave é a perda gradual da capacidade coletiva de separar informações objetivas de discursos movidos por emoção, medo ou fanatismo político. Quando qualquer medida técnica passa a ser automaticamente interpretada como ataque ideológico, instala-se um ambiente permanente de desconfiança e paranoia. Nesse cenário, os fatos deixam de ter importância, porque o principal objetivo passa a ser defender a própria narrativa política e preservar a bolha emocional na qual cada grupo escolhe viver.

Talvez o aspecto mais alarmante de tudo isso seja perceber que parte da sociedade parece mergulhar em um verdadeiro adoecimento coletivo da percepção da realidade. Já não se trata apenas de divergências políticas normais dentro de uma democracia, mas da dificuldade crescente de reconhecer fatos objetivos e agir com equilíbrio diante deles. Quando grupos inteiros passam a confiar mais em teorias conspiratórias do que em informações técnicas, científicas ou verificáveis, existe um evidente enfraquecimento do senso crítico coletivo. A mentira deixa de ser vista como algo excepcional e passa a funcionar como abrigo emocional para pessoas que preferem preservar suas crenças a confrontar a realidade.

Há algo profundamente inquietante em uma sociedade que transforma delírio ideológico em demonstração de consciência política. Quando indivíduos rejeitam evidências concretas para abraçar narrativas fantasiosas apenas porque elas alimentam suas convicções emocionais, o problema ultrapassa a radicalização política e entra no terreno do colapso racional. A verdade passa a ser tratada como inimiga sempre que ameaça a narrativa construída dentro de determinados grupos.

Movimentos extremistas crescem justamente nesse ambiente de fragilidade intelectual e emocional. O pensamento crítico é substituído por identificação afetiva e tribal. Tornam-se loucos. Os fatos deixam de ser analisados pela sua veracidade e passam a ser aceitos ou rejeitados conforme favoreçam determinada visão política. O indivíduo já não acredita no que pode ser comprovado, mas naquilo que lhe oferece pertencimento, conforto emocional e sensação de luta contra um inimigo imaginário.

É exatamente esse mecanismo que parece se espalhar pelo Brasil contemporâneo. Pouco importa se existiu ou não um risco sanitário concreto. Pouco importa que a própria empresa tenha adotado medidas preventivas e interrompido parte da produção. Pouco importa que órgãos técnicos mantenham orientações de cautela enquanto análises seguem em andamento. Para setores já completamente contaminados pela lógica da polarização extrema, qualquer ação institucional passa automaticamente a ser interpretada como perseguição ideológica, censura ou conspiração.

O resultado disso é devastador para qualquer sociedade saudável. Quando instituições técnicas perdem credibilidade diante de narrativas emocionais, abre-se espaço para o caos informacional. Especialistas passam a ser tratados como inimigos. A ciência vira alvo de desconfiança permanente. Informações falsas circulam com mais força do que dados verificáveis. E a política deixa de ser debate racional para se transformar em disputa emocional movida por medo, ressentimento e fanatismo.

O mais perigoso nesse cenário é que o comportamento deixa de parecer absurdo para quem está imerso nele. A radicalização cria uma espécie de bolha psicológica onde qualquer questionamento é visto como ataque, e qualquer prova contrária é automaticamente descartada. Nesse ambiente, a pessoa já não busca compreender a realidade; busca apenas confirmar aquilo em que decidiu acreditar.

Uma sociedade incapaz de diferenciar fatos de fantasia corre sério risco de perder sua capacidade de convivência racional. Sem confiança mínima em instituições, evidências e critérios objetivos, tudo passa a depender de versões emocionais da realidade. E quando a emoção substitui completamente a razão no debate público, abre-se caminho para manipulação coletiva, intolerância e degradação do próprio senso democrático.

O caso do detergente talvez seja apenas mais um episódio aparentemente banal. Mas ele revela algo muito maior e mais preocupante: o avanço de uma cultura onde a verdade objetiva perde espaço para narrativas fabricadas, onde a fidelidade ideológica vale mais do que a responsabilidade intelectual, e onde o fanatismo começa a ocupar o lugar que deveria pertencer ao bom senso.

O mais preocupante é que os efeitos dessa deterioração coletiva da percepção não ficam restritos apenas às discussões nas redes sociais. Eles atravessam a vida cotidiana, contaminam instituições e enfraquecem os próprios pilares que sustentam uma democracia funcional. A ciência passa a ser tratada como ferramenta ideológica. Universidades são retratadas como espaços de manipulação política. O jornalismo profissional vira alvo permanente de ataques e suspeitas. Vacinas deixam de ser vistas como conquistas da medicina para serem interpretadas por alguns grupos como instrumentos de controle social. E agora até órgãos de fiscalização sanitária passam a ser acusados de conspirar contra a população.

Cria-se uma espécie de negacionismo político permanente, um ambiente mental onde toda informação precisa obrigatoriamente se encaixar numa narrativa de perseguição, censura ou conspiração. Qualquer fato que contrarie determinadas crenças passa automaticamente a ser rejeitado. Não importa a quantidade de evidências, documentos, estudos ou análises técnicas apresentados. A convicção emocional já foi construída antes mesmo da realidade ser observada.

E esse fenômeno não nasceu por acaso. Ele foi alimentado durante anos por discursos políticos radicais, influenciadores especializados em gerar indignação, canais digitais movidos por teorias conspiratórias e algoritmos que transformam medo e revolta em lucro e engajamento. A desinformação emocional tornou-se um dos mecanismos mais lucrativos e poderosos da política contemporânea. Quanto maior a sensação de ameaça e conflito, maior o alcance, a audiência e a mobilização.

É importante deixar claro que o problema não está na existência de diferentes correntes ideológicas. Democracias maduras convivem naturalmente com conservadores, progressistas, liberais, socialistas e inúmeras outras visões políticas. Divergência faz parte da liberdade democrática. O verdadeiro risco surge quando o debate abandona completamente os fatos objetivos e passa a funcionar apenas no terreno da crença emocional. Quando acreditar se torna mais importante do que verificar. Quando a identidade política assume características quase religiosas, onde questionar deixa de ser permitido e duvidar se transforma em traição.

Nesse ambiente, qualquer crítica ao próprio grupo passa a ser tratada como ofensa moral ou blasfêmia ideológica. O adversário deixa de ser alguém com opinião diferente e passa a ser visto como inimigo absoluto. E talvez seja exatamente aí que esteja uma das maiores tragédias do Brasil atual. Uma sociedade que consegue transformar até um detergente em símbolo de guerra política já não enfrenta apenas uma crise institucional ou eleitoral. Enfrenta uma crise cognitiva, social e moral profundamente mais séria.

As consequências disso aparecem de maneira concreta no cotidiano. Afetam campanhas de vacinação, políticas de saúde pública, educação, convivência entre famílias e amigos, confiança nas eleições e respeito às instituições democráticas. Aos poucos, o país deixa de discutir propostas reais para o futuro e passa a debater se os próprios fatos existem ou não.

E quando uma sociedade chega a esse estágio, a preocupação deixa de ser apenas quem vencerá a próxima eleição ou qual grupo ocupará o poder. A questão central passa a ser quanto tempo uma democracia consegue permanecer saudável quando parte significativa da população já não compartilha nenhuma referência mínima de realidade comum, verdade verificável ou confiança institucional.

Vivemos uma era marcada pela pós-verdade, pela circulação desenfreada de fake news e pelo fortalecimento do negacionismo emocional. Por isso, continua extremamente atual a reflexão de que todos têm direito às próprias opiniões, mas ninguém possui o direito de fabricar os próprios fatos. As opiniões podem divergir livremente dentro de uma democracia; a realidade, porém, continua existindo independentemente das crenças, paixões políticas ou narrativas ideológicas que cada grupo escolhe defender.

Quando a verdade perde valor coletivo, não existe apenas risco político. Existe o risco de uma sociedade inteira perder sua capacidade de discernimento, responsabilidade e convivência racional. E talvez esse seja o sinal mais perigoso de todos.

 

 

 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

MANDATO PÚBLICO EXIGE TRABALHO E RESPEITO AO CIDADÃO

 MANDATO PÚBLICO EXIGE TRABALHO E RESPEITO AO CIDADÃO

 

Quem Não Lê, Não Entende

Quem Não Busca Conhecimento. Não Pode Representar a População

 

Quando uma pessoa decide se candidatar a qualquer cargo público — de vereador a presidente da República — a primeira obrigação que deveria assumir é conhecer profundamente as leis existentes e compreender, de fato, qual é a função do cargo que pretende ocupar. Muitos entram na política sem entender suas verdadeiras responsabilidades, transformando o mandato em algo superficial e limitado.

No caso do vereador, sua principal função não é apenas pedir favores ao prefeito ou atuar como um simples intermediário de pequenos serviços urbanos. O vereador existe, antes de tudo, para legislar, fiscalizar e representar a população no âmbito municipal. Cabe a ele criar e votar leis municipais relacionadas a temas como saúde, educação, transporte, trânsito, meio ambiente, uso do solo e serviços públicos, sempre respeitando as Constituições Federal e Estadual.

Além disso, o vereador possui uma das funções mais importantes dentro da democracia: fiscalizar o Poder Executivo Municipal. Isso significa acompanhar como o prefeito e os secretários estão aplicando o dinheiro público, verificar a execução das obras, analisar contratos, observar a qualidade dos serviços oferecidos à população e cobrar transparência da administração pública.

Também é responsabilidade dos vereadores aprovar as principais peças orçamentárias do município, como a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), a Lei Orçamentária Anual (LOA) e o Plano Plurianual (PPA). São essas leis que definem onde e como o dinheiro público será investido. Portanto, um vereador atento pode impedir desperdícios, desvios e prioridades equivocadas.

Outra atribuição fundamental é fiscalizar as contas do prefeito, auxiliando o Tribunal de Contas nessa tarefa, além de poder criar Comissões Especiais de Investigação (CEIs) para apurar denúncias, irregularidades ou SUSPEITAS envolvendo a administração municipal.

Em muitos municípios existem milhares de atos normativos já criados — leis ordinárias, leis complementares, decretos e portarias. Isso demonstra que, em diversas situações, o problema não é a falta de leis, mas sim a falta de cumprimento e fiscalização das que já existem. Muitas cidades possuem normas suficientes para garantir limpeza urbana, manutenção das vias públicas, qualidade das obras, atendimento digno na saúde e organização dos serviços municipais. O que falta, muitas vezes, é fiscalização séria e cobrança firme por parte dos representantes eleitos.

A população convive diariamente com problemas que jamais deveriam ser tratados como normais. Entre eles estão os asfaltos de péssima qualidade, que começam a se desfazer poucos dias após a conclusão das obras; ruas tomadas por buracos; bueiros abertos ou sem funcionamento adequado; serviços públicos mal executados; desperdício de dinheiro público; falta de medicamentos nos postos de saúde; acúmulo de lixo em diversos bairros; mato alto em terrenos baldios; abandono de espaços públicos; além de construções que muitas vezes ultrapassam os limites permitidos pela legislação urbana.

Também preocupa a falta de fiscalização em estabelecimentos que comercializam alimentos e água para a população. Em muitos casos, existem falhas graves de higiene e armazenamento, colocando em risco a saúde pública. A higiene é um dos pilares fundamentais para garantir a segurança dos alimentos e da água que chegam à mesa da população, e cabe ao poder público fiscalizar e exigir que as normas sanitárias sejam cumpridas corretamente.

Quando uma obra feita pela prefeitura é realizada sem qualidade, quem acaba pagando a conta é o cidadão. O dinheiro sai dos cofres públicos, mas o serviço entregue muitas vezes não corresponde ao valor investido. Existem asfaltos que parecem durar menos que uma chuva forte, além de reparos feitos apenas para “maquiar” os problemas, enquanto os defeitos retornam pouco tempo depois. Situações como essas precisam ser acompanhadas, questionadas e fiscalizadas pelos vereadores, que têm o dever de exigir qualidade nas obras e responsabilidade na aplicação dos recursos públicos.

Da mesma forma, a falta de medicamentos nos postos de saúde não pode ser encarada como algo comum. Saúde pública é uma necessidade básica e uma obrigação do poder público. Quando faltam remédios essenciais, exames, atendimento adequado ou estrutura mínima para a população, cabe aos vereadores cobrar explicações, analisar contratos, acompanhar licitações e exigir providências imediatas para garantir que os direitos da população sejam respeitados.

Infelizmente, parte dos vereadores limita sua atuação a pedidos simples, como instalação de lombadas, troca de lâmpadas, tapa-buracos ou limpeza de terrenos. Embora essas demandas façam parte das necessidades da cidade, o trabalho parlamentar não pode se resumir a isso. O vereador precisa ir além: investigar por que os problemas continuam acontecendo, quem são os responsáveis, quanto foi gasto e se o serviço foi realmente executado com qualidade.

O vereador que realmente representa o povo não vive dependente politicamente do prefeito nem permanece em silêncio diante dos problemas da cidade. Ele entende que o Legislativo possui autonomia e força para fiscalizar, cobrar transparência e defender os interesses da população.

Quando surgem denúncias, comentários frequentes da população ou suspeitas envolvendo dinheiro público, obras mal feitas ou serviços deficientes, os vereadores têm a obrigação de buscar esclarecimentos junto aos órgãos competentes. Pedir informações não é perseguição política; é dever do cargo. Transparência não é favor — é obrigação da administração pública e direito do cidadão.

Muitas vezes, determinadas gestões não deixam claro onde os recursos estão sendo aplicados, quais prioridades estão sendo adotadas ou por que determinados setores continuam abandonados. E, como diz o ditado popular, “onde há fumaça, pode haver fogo”. Por isso, o vereador comprometido não ignora exigências populares: ele investiga, questiona, acompanha e cobra respostas.

O bom vereador está sempre em busca de soluções reais para melhorar a cidade como um todo, e não apenas atendendo interesses de pequenos grupos ou aliados políticos. Ele busca recursos por meio de emendas parlamentares, acompanha contratos, cobra qualidade nas obras, fiscaliza os gastos públicos e trabalha para garantir que o dinheiro da população seja usado de maneira correta.

Ser vereador não deveria significar apenas ocupar uma cadeira na Câmara e esperar o salário no fim do mês. O verdadeiro representante público trabalha diariamente para fiscalizar, propor melhorias, defender os cidadãos e garantir que os serviços públicos sejam prestados com qualidade, responsabilidade, honestidade e transparência.

Em muitos municípios, os vereadores comparecem à Câmara apenas duas vezes por mês, enquanto recebem salários suficientes para manter uma família com dignidade. Enquanto isso, milhares de aposentados sobrevivem com apenas um salário mínimo, enfrentando dificuldades para pagar remédios, alimentação, água, luz e outras despesas básicas. É justamente essa população trabalhadora, humilde e sacrificada que, através dos impostos, paga os salários dos agentes públicos.

Por isso, o vereador deveria ter consciência da responsabilidade do cargo que ocupa. Quem é sustentado pelo dinheiro do povo precisa trabalhar mais, fiscalizar mais, ouvir mais a população e respeitar cada cidadão que contribui para manter a máquina pública funcionando. O mandato não deve servir para comodidade, interesses pessoais ou benefícios políticos, mas sim para representar verdadeiramente a comunidade e lutar pelos interesses coletivos.




 

 

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

A REVOLUÇÃO DA ILUMINAÇÃO PÚBLICA EM CÁSSIA (2017–2020): ORIGEM, DESAFIOS E A QUESTÃO DA REDUÇÃO DA CIP

 

A REVOLUÇÃO DA ILUMINAÇÃO PÚBLICA EM CÁSSIA (2017–2020): ORIGEM, DESAFIOS E A QUESTÃO DA REDUÇÃO DA CIP

 

Entre os anos de 2017 e 2020, o município de Cássia, em Minas Gerais, vivenciou um dos debates mais relevantes no campo da modernização urbana: a implantação do sistema de iluminação pública em LED. A iniciativa teve como principais articuladores o então vereador Ciro Antônio de Oliveira Costa, conhecido como Ciro, e o prefeito à época Marco Leandro Almeida Arantes, popularmente chamado de Kito Arantes. A proposta, que hoje é reconhecida pelos seus benefícios, enfrentou resistência significativa em sua fase inicial.

O projeto de substituição das luminárias tradicionais — como as de vapor de mercúrio, vapor de sódio e metálicas — por tecnologia LED não foi prontamente aceito pela Câmara Municipal. Em sua primeira votação, a proposta foi rejeitada pela maioria dos vereadores, que, naquele momento, não compreenderam plenamente o alcance e os impactos positivos da modernização proposta. A rejeição inicial evidenciou um cenário comum em administrações públicas: a dificuldade de aprovação de projetos inovadores que exigem investimento inicial elevado, mesmo quando apresentam retorno garantido a médio e longo prazo.

Diante desse impasse, houve mobilização para reverter a decisão. Um empresário influente teve papel decisivo ao se posicionar de forma firme em defesa do projeto, destacando sua importância estratégica para o desenvolvimento urbano e a eficiência energética do município. Esse apoio externo contribuiu para uma reavaliação por parte dos vereadores, levando à realização de uma segunda votação, na qual, finalmente, o projeto foi aprovado.

Com a aprovação legislativa, a administração municipal deu início à execução do projeto por meio de financiamento junto ao Banco do Brasil. O investimento previsto foi de até R$ 1.970.000,00 (um milhão, novecentos e setenta mil reais), destinado à substituição gradual das luminárias antigas por equipamentos de LED, reconhecidos por sua maior durabilidade, eficiência luminosa e economia de energia.

Do ponto de vista técnico, a tecnologia LED apresenta um consumo energético entre 60% e 70% inferior ao das lâmpadas convencionais para um mesmo nível de iluminação. Essa característica não apenas reduz significativamente os custos operacionais do município, como também melhora a qualidade da iluminação urbana, aumentando a segurança pública e o conforto visual da população.

Desde o início, Ciro e Kito defenderam que a economia gerada pelo novo sistema deveria ser revertida em benefícios diretos à população. Entre esses benefícios, destacava-se a possibilidade de ampliação da rede de iluminação pública em áreas antes deficientes, bem como a perspectiva de redução da Contribuição de Iluminação Pública (CIP), taxa cobrada dos contribuintes para custear o serviço. No entanto, essa redução foi planejada para ocorrer apenas após a quitação do financiamento contratado para viabilizar o projeto.

Além da modernização do parque de iluminação existente, a gestão de Kito Arantes também estruturou um projeto de expansão da rede, contemplando regiões onde a iluminação era considerada inadequada ou insuficiente. Esse planejamento reforça o caráter estratégico da iniciativa, que não se limitou à substituição tecnológica, mas buscou uma reestruturação mais ampla do sistema de iluminação pública municipal.

Passados os anos e com a quitação do financiamento já realizada, surge um ponto de debate relevante: a não redução da taxa de CIP, conforme originalmente defendido pelos idealizadores do projeto. A manutenção dos valores cobrados levanta questionamentos por parte de setores da sociedade e dos próprio idealizadores do projeto, que argumentam que, diante da comprovada economia proporcionada pelo LED, seria justo repassar parte desse benefício diretamente aos contribuintes, especialmente à população de menor renda.

Esse cenário também traz à tona uma discussão política recorrente: o reconhecimento da autoria e da concepção de políticas públicas. A implantação do LED em Cássia foi resultado de uma iniciativa específica, construída com esforço, enfrentando resistência e exigindo articulação política e social. Com o passar do tempo, há o risco de que os créditos por tais avanços sejam diluídos ou apropriados por agentes que não participaram de sua origem.

Além disso, é importante destacar que a atuação conjunta de Ciro Antônio de Oliveira Costa e Marco Leandro Almeida Arantes foi marcada por visão administrativa e compromisso com a modernização do município. Ambos não apenas idealizaram o projeto, mas também sustentaram sua defesa diante de resistências políticas e dúvidas iniciais, demonstrando capacidade de articulação e persistência. A proposta do LED não surgiu como uma medida pontual, mas como parte de um planejamento estratégico voltado à eficiência energética, à melhoria da qualidade de vida da população e ao uso mais inteligente dos recursos públicos. Ao estruturarem o financiamento, planejarem a execução e projetarem benefícios futuros, como a possível redução da CIP, mostraram responsabilidade fiscal e preocupação social, evidenciando que a iniciativa foi construída com base em critérios técnicos e no interesse coletivo, e não apenas em decisões momentâneas.

Registrar esse processo de forma clara e detalhada é fundamental não apenas para preservar a memória administrativa do município, mas também para informar a população sobre a origem das melhorias implementadas e sobre os compromissos assumidos no momento de sua concepção. A transparência nesse tipo de informação fortalece o controle social e contribui para uma gestão pública mais responsável e alinhada aos interesses da comunidade.

 

 

quarta-feira, 25 de março de 2026

VOLTAR AO QUE FUNCIONAVA: A SOLUÇÃO PARA O CAOS NA COLETA DE LIXO

 


VOLTAR AO QUE FUNCIONAVA: A SOLUÇÃO PARA O CAOS NA COLETA DE LIXO

 

Diante de tantos relatos semelhantes, fica claro que o problema não é pontual, mas estrutural. Quando diversos moradores de bairros diferentes apontam falhas como coleta incompleta, lixo espalhado nas ruas, horários inadequados e falta de fiscalização, isso indica que o modelo atual de prestação do serviço não está atendendo às necessidades da população.

Uma solução definitiva precisa ir além de medidas paliativas. O primeiro ponto é reconhecer que a terceirização, da forma como foi implantada, não trouxe a eficiência esperada. Quando o serviço era realizado diretamente pela prefeitura, havia maior controle, organização e responsabilidade dos servidores. Isso não significa que o modelo público seja perfeito, mas, neste caso específico, mostrou-se mais eficaz.

Diante disso, uma alternativa justa e coerente seria a retomada do serviço pela própria prefeitura e urgente, com equipes próprias, planejamento adequado e fiscalização direta. O poder público tem mais condições de exigir cumprimento de horários, qualidade na coleta e respeito à população quando o serviço está sob sua gestão.

Caso a terceirização seja mantida, é indispensável impor regras mais rígidas à empresa contratada, com fiscalização ativa, aplicação de multas por falhas e até rescisão de contrato em caso de descumprimento contínuo. Não se pode admitir que um serviço essencial, pago com impostos altos, seja prestado de forma precária.

Outro ponto fundamental é a organização do sistema: definição clara de horários, padronização da coleta (inclusive para quem não possui lixeiras), orientação à população e presença de fiscais nas ruas. Sem isso, o problema tende a continuar, independentemente de quem execute o serviço, principalmente se a empresa for de outra região.

Portanto, a solução definitiva passa por uma decisão firme da gestão pública: ou reassume o serviço e o organiza de forma eficiente, ou exige da empresa terceirizada um padrão rigoroso de qualidade, com acompanhamento constante. O que não pode continuar é a situação atual, onde a população paga caro e convive com ruas sujas, lixo espalhado e sensação de abandono.

Em resumo, o mais justo — como muitos defendem — é voltar ao modelo anterior, desde que venha acompanhado de planejamento, responsabilidade e compromisso real com a limpeza da cidade.

quarta-feira, 18 de março de 2026

DA REFERÊNCIA: A REALIDADE DESGOSTOSA

 

DA REFERÊNCIA: A REALIDADE DESGOSTOSA

 

 

Lendo uma matéria do jornal de Franca SP, onde dizia: “Morador em situação de rua é agredido em Cássia”, sabe, deu-me uma tristeza louca por dentro. Poucas pessoas vão entender isso, mas pensei: o que estão fazendo com a nossa querida cidade, de uns anos para cá? Cássia sempre foi uma cidade tranquila, acolhedora, onde existia respeito entre as pessoas. Não era perfeita, mas havia um senso de humanidade que parecia nos unir.

Hoje, uma notícia como essa não fere apenas pelo fato em si, mas pelo que ela representa: a perda de valores, a falta de empatia e o enfraquecimento do respeito ao próximo. Isso assusta — mas deveria, acima de tudo, incomodar. Uma pessoa em situação de rua não precisa apenas de caridade passageira. Precisa de condições mínimas para viver com dignidade e de apoio real para reconstruir a própria vida. Não é só falta de um teto. É a ausência de estrutura, de oportunidade, de políticas eficazes e, muitas vezes, de humanidade. Antes de apontar o dedo, é preciso ter coragem de perguntar: o que levou essa pessoa até ali? Ninguém escolhe o abandono, a fome, o frio e a invisibilidade.

Nem toda pessoa em situação de rua usa drogas. Mas, quando há uso, isso não anula a condição humana nem os direitos dela. Na maioria dos casos, o uso de drogas está ligado a fatores mais profundos, como: sofrimento psicológico, traumas e rupturas familiares, pobreza extrema, falta de perspectiva, ausência de apoio do Estado e da sociedade. Além disso, a dependência química é reconhecida como uma Dependência, ou seja, não é apenas “falta de vontade” ou “escolha”.

Julgar é cômodo. Ignorar é mais fácil ainda. Difícil — e necessário — é enxergar, compreender e agir.

E porque não estamos falando de qualquer lugar, estamos falando da nossa cidade. Ainda há tempo de refletir e resgatar aquilo que sempre fez Cássia ser especial. Porque, no fim, uma cidade é o reflexo das pessoas que vivem nela.

Nas décadas de sessenta, setenta e até por volta dos anos noventa, nossa cidade era vista como exemplo na região. Um verdadeiro polo cultural, onde éramos constantemente convidados para apresentar o que tínhamos de melhor.

O congado, forte expressão da nossa tradição, era reconhecido pela sua qualidade e respeito às raízes. O carnaval, sem dúvida, era um dos melhores da região — havia pessoas que vinham até do Rio de Janeiro, capital do carnaval mundial, para aproveitar a nossa festa.

Os três clubes de dança se destacavam e movimentavam a sociedade, sendo referência em toda a região. No esporte, o futebol da Esportiva Cassiense revelava talentos, uma verdadeira linha de craques, com jogadores que seguiram para equipes de maior expressão.

Hoje, até pode surgir um nome ou outro, mas já não é algo que se destaque como antes. E isso não é apenas uma mudança no esporte ou na cultura — é um reflexo de algo maior que, aos poucos, foi se perdendo.

As festas de Santo Antônio, de Santa Efigênia e tantas outras rurais eram verdadeiros exemplos de organização, fé e participação popular. Não eram apenas eventos, eram momentos de união, onde a cidade inteira se encontrava e vivia aquilo com orgulho.

As escolas rurais eram referência, modelo para outras cidades vizinhas, mostrando a força da educação mesmo longe do centro urbano. O grupo escolar Melo Viana, então, nem se fala — símbolo de ensino, disciplina e formação de gerações que carregaram consigo valores sólidos.

A Praça Barão era um ponto de encontro vivo, com sua fonte, o coreto e a música que encantava as famílias nas noites tranquilas. Ali se via alegria simples, mas verdadeira, de gente que sabia valorizar os pequenos momentos.

O cinema, que marcou época, deixou lembranças que até hoje vivem na memória de muitos — tempos em que assistir a um filme era mais que lazer, era um acontecimento.

São tantas lembranças, tantos exemplos de uma cidade vibrante e cheia de vida, que seria impossível colocar tudo em palavras.

A evolução sempre é bem-vinda, desde que seja para o bem. É claro que não devemos ficar parados no tempo — é preciso avançar, buscar melhorias, acompanhar as mudanças e preparar a cidade para o futuro.

Mas evoluir não significa perder a essência. Progredir não deveria ser sinônimo de abandonar valores, tradições e aquilo que um dia nos fez ser motivo de orgulho.

Ver uma cidade como a nossa, que já foi uma das melhores da região, reconhecida pela sua cultura, pelo trabalho, pela educação, pelo respeito entre as pessoas, seguir por um caminho de declínio, é algo profundamente triste.

O crescimento verdadeiro acontece quando se soma o novo ao que já era bom, quando se preserva a identidade e se constrói em cima dela. Quando isso não acontece, o que vemos não é evolução — é perda.

E é justamente isso que mais preocupa: não é apenas o que mudou, mas aquilo que foi deixado para trás.

De tempos para cá, o que mais se vê nos tabloides escrito, na TV, no rádio e nas redes sociais são notícias negativas sobre Cássia. É sempre “aconteceu isso” ou “aconteceu aquilo”: confusões, desordem, sinais de má gestão municipal, falta disso daquilo, abandono e até problemas com enchentes que roda carros.

São tantas situações que vão se acumulando, desgastando a imagem da cidade e, mais do que isso, afetando o dia a dia da população.

Como disse meu amigo GAIVOTA, em uma frase que, apesar de simples, carrega uma dura realidade: “SÓ NÃO ATOLA MAIS PORQUE JÁ DEU NO FUNDO”.

E quando se chega a esse ponto, não é motivo de conformismo — é um sinal claro de que algo precisa mudar com urgência.

Daí eu pergunto: a culpa é de quem? Da população, que sempre foi crédula, acolhedora e disposta a acreditar no melhor? Não.

A culpa, em ampla parte, está naqueles que acreditam que governar é impor, que decidir sozinho é sinal de força, e que agir sem ouvir ninguém é eficiência. Pessoas que confundem autoridade com autoritarismo, e liderança com imposição.

São atitudes repetidas: “é assim”, “faz assim”, “traz aqui”, “leva ali”, “eu decido e pronto”. Sem diálogo, sem transparência, sem planejamento, outros mandando, destruindo e, muitas vezes, sem compromisso real com o interesse coletivo.

Falta ouvir mais, pensar mais, planejar melhor. Falta entender que uma cidade não se constrói com decisões isoladas, mas com responsabilidade, participação e respeito pela população.

E o resultado disso tudo, infelizmente, é o que estamos vendo hoje: uma cidade que já foi referência, agora a realidade desgostosa, que está enfrentando problemas que poderiam, sim, ter sido evitados.

 

Pena.