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quarta-feira, 18 de março de 2026

DA REFERÊNCIA: A REALIDADE DESGOSTOSA

 

DA REFERÊNCIA: A REALIDADE DESGOSTOSA

 

 

Lendo uma matéria do jornal de Franca SP, onde dizia: “Morador em situação de rua é agredido em Cássia”, sabe, deu-me uma tristeza louca por dentro. Poucas pessoas vão entender isso, mas pensei: o que estão fazendo com a nossa querida cidade, de uns anos para cá? Cássia sempre foi uma cidade tranquila, acolhedora, onde existia respeito entre as pessoas. Não era perfeita, mas havia um senso de humanidade que parecia nos unir.

Hoje, uma notícia como essa não fere apenas pelo fato em si, mas pelo que ela representa: a perda de valores, a falta de empatia e o enfraquecimento do respeito ao próximo. Isso assusta — mas deveria, acima de tudo, incomodar. Uma pessoa em situação de rua não precisa apenas de caridade passageira. Precisa de condições mínimas para viver com dignidade e de apoio real para reconstruir a própria vida. Não é só falta de um teto. É a ausência de estrutura, de oportunidade, de políticas eficazes e, muitas vezes, de humanidade. Antes de apontar o dedo, é preciso ter coragem de perguntar: o que levou essa pessoa até ali? Ninguém escolhe o abandono, a fome, o frio e a invisibilidade.

Nem toda pessoa em situação de rua usa drogas. Mas, quando há uso, isso não anula a condição humana nem os direitos dela. Na maioria dos casos, o uso de drogas está ligado a fatores mais profundos, como: sofrimento psicológico, traumas e rupturas familiares, pobreza extrema, falta de perspectiva, ausência de apoio do Estado e da sociedade. Além disso, a dependência química é reconhecida como uma Dependência, ou seja, não é apenas “falta de vontade” ou “escolha”.

Julgar é cômodo. Ignorar é mais fácil ainda. Difícil — e necessário — é enxergar, compreender e agir.

E porque não estamos falando de qualquer lugar, estamos falando da nossa cidade. Ainda há tempo de refletir e resgatar aquilo que sempre fez Cássia ser especial. Porque, no fim, uma cidade é o reflexo das pessoas que vivem nela.

Nas décadas de sessenta, setenta e até por volta dos anos noventa, nossa cidade era vista como exemplo na região. Um verdadeiro polo cultural, onde éramos constantemente convidados para apresentar o que tínhamos de melhor.

O congado, forte expressão da nossa tradição, era reconhecido pela sua qualidade e respeito às raízes. O carnaval, sem dúvida, era um dos melhores da região — havia pessoas que vinham até do Rio de Janeiro, capital do carnaval mundial, para aproveitar a nossa festa.

Os três clubes de dança se destacavam e movimentavam a sociedade, sendo referência em toda a região. No esporte, o futebol da Esportiva Cassiense revelava talentos, uma verdadeira linha de craques, com jogadores que seguiram para equipes de maior expressão.

Hoje, até pode surgir um nome ou outro, mas já não é algo que se destaque como antes. E isso não é apenas uma mudança no esporte ou na cultura — é um reflexo de algo maior que, aos poucos, foi se perdendo.

As festas de Santo Antônio, de Santa Efigênia e tantas outras rurais eram verdadeiros exemplos de organização, fé e participação popular. Não eram apenas eventos, eram momentos de união, onde a cidade inteira se encontrava e vivia aquilo com orgulho.

As escolas rurais eram referência, modelo para outras cidades vizinhas, mostrando a força da educação mesmo longe do centro urbano. O grupo escolar Melo Viana, então, nem se fala — símbolo de ensino, disciplina e formação de gerações que carregaram consigo valores sólidos.

A Praça Barão era um ponto de encontro vivo, com sua fonte, o coreto e a música que encantava as famílias nas noites tranquilas. Ali se via alegria simples, mas verdadeira, de gente que sabia valorizar os pequenos momentos.

O cinema, que marcou época, deixou lembranças que até hoje vivem na memória de muitos — tempos em que assistir a um filme era mais que lazer, era um acontecimento.

São tantas lembranças, tantos exemplos de uma cidade vibrante e cheia de vida, que seria impossível colocar tudo em palavras.

A evolução sempre é bem-vinda, desde que seja para o bem. É claro que não devemos ficar parados no tempo — é preciso avançar, buscar melhorias, acompanhar as mudanças e preparar a cidade para o futuro.

Mas evoluir não significa perder a essência. Progredir não deveria ser sinônimo de abandonar valores, tradições e aquilo que um dia nos fez ser motivo de orgulho.

Ver uma cidade como a nossa, que já foi uma das melhores da região, reconhecida pela sua cultura, pelo trabalho, pela educação, pelo respeito entre as pessoas, seguir por um caminho de declínio, é algo profundamente triste.

O crescimento verdadeiro acontece quando se soma o novo ao que já era bom, quando se preserva a identidade e se constrói em cima dela. Quando isso não acontece, o que vemos não é evolução — é perda.

E é justamente isso que mais preocupa: não é apenas o que mudou, mas aquilo que foi deixado para trás.

De tempos para cá, o que mais se vê nos tabloides escrito, na TV, no rádio e nas redes sociais são notícias negativas sobre Cássia. É sempre “aconteceu isso” ou “aconteceu aquilo”: confusões, desordem, sinais de má gestão municipal, falta disso daquilo, abandono e até problemas com enchentes que roda carros.

São tantas situações que vão se acumulando, desgastando a imagem da cidade e, mais do que isso, afetando o dia a dia da população.

Como disse meu amigo GAIVOTA, em uma frase que, apesar de simples, carrega uma dura realidade: “SÓ NÃO ATOLA MAIS PORQUE JÁ DEU NO FUNDO”.

E quando se chega a esse ponto, não é motivo de conformismo — é um sinal claro de que algo precisa mudar com urgência.

Daí eu pergunto: a culpa é de quem? Da população, que sempre foi crédula, acolhedora e disposta a acreditar no melhor? Não.

A culpa, em ampla parte, está naqueles que acreditam que governar é impor, que decidir sozinho é sinal de força, e que agir sem ouvir ninguém é eficiência. Pessoas que confundem autoridade com autoritarismo, e liderança com imposição.

São atitudes repetidas: “é assim”, “faz assim”, “traz aqui”, “leva ali”, “eu decido e pronto”. Sem diálogo, sem transparência, sem planejamento, outros mandando, destruindo e, muitas vezes, sem compromisso real com o interesse coletivo.

Falta ouvir mais, pensar mais, planejar melhor. Falta entender que uma cidade não se constrói com decisões isoladas, mas com responsabilidade, participação e respeito pela população.

E o resultado disso tudo, infelizmente, é o que estamos vendo hoje: uma cidade que já foi referência, agora a realidade desgostosa, que está enfrentando problemas que poderiam, sim, ter sido evitados.

 

Pena.

 

 

 


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