DA REFERÊNCIA: A
REALIDADE DESGOSTOSA
Lendo uma matéria
do jornal de Franca SP, onde dizia: “Morador em situação de
rua é agredido em Cássia”, sabe, deu-me uma tristeza louca por
dentro. Poucas pessoas vão entender isso, mas pensei: o que estão fazendo com a
nossa querida cidade, de uns anos para cá? Cássia sempre foi uma cidade
tranquila, acolhedora, onde existia respeito entre as pessoas. Não era
perfeita, mas havia um senso de humanidade que parecia nos unir.
Hoje, uma notícia
como essa não fere apenas pelo fato em si, mas pelo que ela representa: a perda
de valores, a falta de empatia e o enfraquecimento do respeito ao próximo. Isso
assusta — mas deveria, acima de tudo, incomodar. Uma pessoa em situação de rua
não precisa apenas de caridade passageira. Precisa de condições mínimas para
viver com dignidade e de apoio real para reconstruir a própria vida. Não é só
falta de um teto. É a ausência de estrutura, de oportunidade, de políticas
eficazes e, muitas vezes, de humanidade. Antes de apontar o dedo, é preciso ter
coragem de perguntar: o que levou essa pessoa até ali? Ninguém escolhe o
abandono, a fome, o frio e a invisibilidade.
Nem toda pessoa em
situação de rua usa drogas. Mas, quando há uso, isso não anula a condição
humana nem os direitos dela. Na maioria dos casos, o uso de drogas está ligado
a fatores mais profundos, como: sofrimento psicológico, traumas e rupturas
familiares, pobreza extrema, falta de perspectiva, ausência de apoio do Estado
e da sociedade. Além disso, a dependência química é reconhecida como uma
Dependência, ou seja, não é apenas “falta de vontade” ou “escolha”.
Julgar é cômodo. Ignorar
é mais fácil ainda. Difícil — e necessário — é enxergar, compreender e agir.
E porque não
estamos falando de qualquer lugar, estamos falando da nossa cidade. Ainda há
tempo de refletir e resgatar aquilo que sempre fez Cássia ser especial. Porque,
no fim, uma cidade é o reflexo das pessoas que vivem nela.
Nas décadas de
sessenta, setenta e até por volta dos anos noventa, nossa cidade era vista como
exemplo na região. Um verdadeiro polo cultural, onde éramos constantemente
convidados para apresentar o que tínhamos de melhor.
O congado, forte
expressão da nossa tradição, era reconhecido pela sua qualidade e respeito às
raízes. O carnaval, sem dúvida, era um dos melhores da região — havia pessoas que
vinham até do Rio de Janeiro, capital do carnaval mundial, para aproveitar a
nossa festa.
Os três clubes de
dança se destacavam e movimentavam a sociedade, sendo referência em toda a
região. No esporte, o futebol da Esportiva Cassiense revelava talentos, uma
verdadeira linha de craques, com jogadores que seguiram para equipes de maior
expressão.
Hoje, até pode
surgir um nome ou outro, mas já não é algo que se destaque como antes. E isso
não é apenas uma mudança no esporte ou na cultura — é um reflexo de algo maior
que, aos poucos, foi se perdendo.
As festas de Santo
Antônio, de Santa Efigênia e tantas outras rurais eram verdadeiros exemplos de
organização, fé e participação popular. Não eram apenas eventos, eram momentos
de união, onde a cidade inteira se encontrava e vivia aquilo com orgulho.
As escolas rurais
eram referência, modelo para outras cidades vizinhas, mostrando a força da
educação mesmo longe do centro urbano. O grupo escolar Melo Viana, então, nem
se fala — símbolo de ensino, disciplina e formação de gerações que carregaram
consigo valores sólidos.
A Praça Barão era
um ponto de encontro vivo, com sua fonte, o coreto e a música que encantava as
famílias nas noites tranquilas. Ali se via alegria simples, mas verdadeira, de
gente que sabia valorizar os pequenos momentos.
O cinema, que
marcou época, deixou lembranças que até hoje vivem na memória de muitos —
tempos em que assistir a um filme era mais que lazer, era um acontecimento.
São tantas
lembranças, tantos exemplos de uma cidade vibrante e cheia de vida, que seria
impossível colocar tudo em palavras.
A evolução sempre
é bem-vinda, desde que seja para o bem. É claro que não devemos ficar parados
no tempo — é preciso avançar, buscar melhorias, acompanhar as mudanças e
preparar a cidade para o futuro.
Mas evoluir não
significa perder a essência. Progredir não deveria ser sinônimo de abandonar
valores, tradições e aquilo que um dia nos fez ser motivo de orgulho.
Ver uma cidade
como a nossa, que já foi uma das melhores da região, reconhecida pela sua
cultura, pelo trabalho, pela educação, pelo respeito entre as pessoas, seguir
por um caminho de declínio, é algo profundamente triste.
O crescimento
verdadeiro acontece quando se soma o novo ao que já era bom, quando se preserva
a identidade e se constrói em cima dela. Quando isso não acontece, o que vemos
não é evolução — é perda.
E é justamente
isso que mais preocupa: não é apenas o que mudou, mas aquilo que foi deixado
para trás.
De tempos para cá,
o que mais se vê nos tabloides escrito, na TV, no rádio e nas redes sociais são
notícias negativas sobre Cássia. É sempre “aconteceu isso” ou “aconteceu
aquilo”: confusões, desordem, sinais de má gestão municipal, falta disso
daquilo, abandono e até problemas com enchentes que roda carros.
São tantas
situações que vão se acumulando, desgastando a imagem da cidade e, mais do que
isso, afetando o dia a dia da população.
Como disse meu
amigo GAIVOTA, em uma frase que, apesar de simples, carrega uma dura
realidade: “SÓ NÃO ATOLA MAIS PORQUE JÁ DEU NO FUNDO”.
E quando se chega
a esse ponto, não é motivo de conformismo — é um sinal claro de que algo
precisa mudar com urgência.
Daí eu pergunto: a
culpa é de quem? Da população, que sempre foi crédula, acolhedora e disposta a
acreditar no melhor? Não.
A culpa, em ampla
parte, está naqueles que acreditam que governar é impor, que decidir sozinho é
sinal de força, e que agir sem ouvir ninguém é eficiência. Pessoas que
confundem autoridade com autoritarismo, e liderança com imposição.
São atitudes
repetidas: “é assim”, “faz assim”, “traz aqui”, “leva ali”, “eu decido e
pronto”. Sem diálogo, sem transparência, sem planejamento, outros mandando,
destruindo e, muitas vezes, sem compromisso real com o interesse coletivo.
Falta ouvir mais,
pensar mais, planejar melhor. Falta entender que uma cidade não se constrói com
decisões isoladas, mas com responsabilidade, participação e respeito pela
população.
E o resultado
disso tudo, infelizmente, é o que estamos vendo hoje: uma cidade que já foi
referência, agora a realidade desgostosa, que está enfrentando problemas
que poderiam, sim, ter sido evitados.
Pena.

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