UM RELATO QUE NÃO CONSIGO
ESQUECER: UMA CRIANÇA, UMA ESCURIDÃO E UM PEDIDO DE SOCORRO PELA UNIÃO
Um acontecimento no Parque Dona Neném me deixou
profundamente impressionado. O que vi permanece na minha memória, e o pedido
que ouvi continua ecoando dentro de mim: precisamos parar de alimentar o ódio
antes que seja tarde demais.
Faz alguns dias que aconteceu algo que ainda não
consegui tirar da cabeça.
Eu estava saindo do Mercado Cássia, carregando
algumas sacolas, quando resolvi parar debaixo da árvore de jaca que fica no Parque
Dona Neném. Foi ali, naquele momento aparentemente comum, que vivi uma
experiência difícil de explicar.
De repente, uma escuridão tomou conta dos meus
olhos. E, dentro daquela escuridão, surgiu uma cena assustadora: uma multidão
de pessoas, com diferentes aparências e pensamentos, carregando paus, bandeiras,
facas, machados, foices, enxadas, facões e até mesmo arma de fogo.
No meio daquele movimento, havia sangue por toda
parte, como se a violência tivesse tomado conta de tudo.
Era uma cena de confronto, divisão e sofrimento.
Não havia espaço para o diálogo, para o entendimento ou para a compreensão. O
que se destacava era a imagem de um povo furioso, tomado pela hostilidade e
caminhando em direção a algo terrível.
Mas, no meio de toda aquela confusão, havia uma
criança.
Em alguns momentos, ela aparecia branca; em outros,
negra. Sua aparência mudava, mas seu pedido permanecia o mesmo. Era como se
aquela criança representasse todas as crianças, sem distinção de cor, origem ou
condição social.
Ela pedia socorro. Pedia que eu falasse aos
jornais, às rádios e às emissoras de televisão. Pedia que alguém transmitisse
uma mensagem capaz de alcançar as pessoas antes que a violência tomasse
proporções ainda maiores.
A mensagem era clara: parem de provocar a guerra
entre o povo. Parem de alimentar a divisão. A nação precisa se unir.
Tudo aconteceu tão rapidamente que não soube o que
fazer naquele instante. A experiência passou, mas a lembrança permaneceu.
Acredite quem quiser. Não escrevo estas palavras
para obrigar ninguém a acreditar no que relato, tampouco para impor uma
interpretação a quem pensa de maneira diferente. Escrevo porque aquilo me
marcou profundamente e porque acredito que a mensagem de união merece ser
ouvida, independentemente da explicação que cada pessoa encontre para o
ocorrido.
POR QUE ESTOU TORNANDO ESTE RELATO PÚBLICO?
Desde aquele dia, a imagem da criança pedindo
socorro continua voltando à minha memória. Sinto que preciso dar publicidade a
essa mensagem, especialmente porque o ambiente não é favorável, as agressões
verbais, a intolerância e os conflitos que presenciamos podem contribuir para
afastar ainda mais as pessoas e sangrar.
O problema começa quando a divergência deixa de ser
discussão e passa a ser tratada como motivo para humilhar, ameaçar, perseguir
ou agredir o outro.
UM APELO AOS JORNAIS, ÀS RÁDIOS E ÀS EMISSORAS DE
TELEVISÃO
A criança pedia que a mensagem chegasse aos meios
de comunicação. Por isso, faço um apelo público aos profissionais da imprensa,
aos responsáveis pelas redações, aos apresentadores, aos comentaristas e aos
comunicadores de todo o país.
A imprensa tem um papel fundamental precisa se
unirem refletir sobre a importância de dar visibilidade a iniciativas de paz,
exemplos de solidariedade, gestos de reconciliação e ações que aproximem
pessoas que pensam de maneira diferente, que criem canais dentro da programação
falando ao povo sobre ser um só povo e não inimigo.
O SANGUE QUE VI E O FUTURO QUE NÃO QUERO PARA O POVO
A imagem do sangue foi uma das partes mais
marcantes daquele acontecimento. Não posso afirmar que ele anunciasse um
acontecimento futuro, e não seria responsável transformar uma experiência
pessoal em certeza de que haverá uma tragédia.
Entretanto, a cena me levou a uma reflexão que
considero necessária: o que acontece quando uma sociedade permite que a
intolerância cresça sem que ninguém se preocupe em interromper esse processo?
A violência não começa necessariamente com armas
nas mãos. Muitas vezes, ela é precedida por palavras de ameaças, humilhações,
discursos de ódio e pela ideia de que quem pensa diferente merece ser atacado.
É por isso que não devemos esperar que uma situação
se agrave para defender a paz.
Se existe algo que podemos fazer hoje para evitar
conflitos amanhã, esse algo começa com responsabilidade, diálogo, respeito às
diferenças e rejeição a qualquer forma de violência.
Não quero que o povo chegue a um cenário de sangue,
medo e sofrimento. Quero que a imagem que me marcou sirva como motivo para
refletirmos sobre o país que estamos construindo.
A MENSAGEM QUE PRECISA CHEGAR A TODOS
Faço este apelo a quem trabalha nos meios de
comunicação, a quem exerce funções públicas, a quem participa das igrejas,
política e a cada cidadão que fale de ser um só povo.
A criança que vi naquele acontecimento pedia que a
mensagem fosse levada adiante. É isso que procuro fazer agora, transformando o
que vivi em um apelo público à reflexão.
Talvez cada pessoa interprete esse relato de uma
maneira. Alguns poderão considerá-lo uma experiência difícil de explicar;
outros poderão enxergá-lo como um alerta simbólico sobre o momento que vivemos.
Não exijo concordância. Peço apenas que a mensagem de paz seja considerada com
seriedade.
Este é o relato pessoal e o apelo à sociedade de
uma pessoa que teve essa visão em uma tarde de quarta-feira, do mês de agosto,
por volta das dezesseis horas.
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