Administração de Cássia (MG) acumula falhas enquanto
vereadores repetem alertas e esbarram no silêncio do Executivo
Os problemas na gestão municipal de Cássia, no Sul de Minas,
não são novidade para quem acompanha as sessões da Câmara. Vereadores têm
levado à tribuna, sessão após sessão, uma lista extensa de deficiências – da
saúde ao transporte, da limpeza urbana à infraestrutura, das contratações
irregulares ao descaso com o turismo. O que impressiona, no entanto, é o
cansaço estampado nos discursos: os mesmos assuntos voltam, os mesmos ofícios
são enviados, e as respostas, quando existem, são vagas ou inexistentes.
Um ciclo de reclamações e poucas soluções
Quem acompanha os debates percebe que os parlamentares já
não se limitam a apontar problemas; eles cobram documentos, pedem respostas por
escrito, exigem planejamento. Mas a sensação é de que a prefeitura age como se
o tempo pudesse ser esticado indefinidamente. A falta de retorno a ofícios
encaminhados a três secretarias diferentes sobre um biodigestor inoperante na
Rua dos Lírios – abandonado há mais de dez anos – é apenas um exemplo do que os
vereadores descrevem como “descaso institucional”.
“Não quero mais telefonema, quero documento”, afirmou um dos
edis, deixando claro que a paciência com a informalidade e a enrolação se
esgotou. A cobrança por transparência e eficiência tornou-se uma batalha
diária, e os parlamentares, muitos deles com mandatos renovados, já demonstram
exaustão diante da repetição dos mesmos dramas.
Infraestrutura que vira piada e risco
A situação chega a níveis quase absurdos em obras e serviços
básicos. A ligação de esgoto que deixa o asfalto aberto por tempos, o
cruzamento com quatro placas de “PARE” – uma aberração técnica que beira o
ridículo – e o biodigestor sem tampa e tomado pelo mato são símbolos de uma
gestão que parece não ter prioridades claras. Enquanto isso, os vereadores
apontam o erro, mostram imagens, pedem correções, mas o cenário se repete.
“É lamentável, um erro grosseiro que acredito que já vão
estar arrumando”, disse um parlamentar, com um misto de esperança e
incredulidade. Mas a realidade mostra que, se a correção chega, é tardia e
malfeita.
Riscos legais ignorados e contratos irregulares
Outro ponto que tem consumido o tempo dos vereadores é a
gestão de pessoal. O concurso público vigente está prestes a vencer, e a
prefeitura mantém dezenas de contratos temporários, muitos deles sem
justificativa legal. Os edis têm alertado, repetidamente, que o Supremo
Tribunal Federal já decidiu contra esse tipo de prática, e que o prefeito pode
ser responsabilizado pessoalmente por improbidade. Ainda assim, as convocações
dos aprovados não acontecem, e o Executivo segue contratando por prazo determinado,
como se o alerta não tivesse sido feito.
“Estamos avisando para não acontecer com ninguém – nem com o
prefeito, nem com os secretários”, ponderou um vereador, mas o tom era de quem
já vê o desastre à frente e pouco pode fazer além de registrar o protesto.
Emendas impositivas: fiscalização e ameaça de ação
judicial
A Câmara também tenta se organizar internamente para
fiscalizar o cumprimento das emendas impositivas – recursos que o Executivo é
obrigado a executar. Os vereadores aprovaram mudanças no regimento interno para
dar mais transparência e pressão sobre a prefeitura, mas a desconfiança
permanece. Há relatos de cidades vizinhas onde a prefeitura desconta essas
emendas de subvenções já previstas – prática ilegal que pode levar a denúncias
no Tribunal de Contas e no Ministério Público.
Em Cássia, os parlamentares afirmam que não há provas de que
isso ocorra, mas o simples fato de terem que abrir esse debate já revela o
ambiente de desconfiança instalado entre os Poderes.
Turismo abandonado e visitantes desorientados
Por fim, a questão turística – tão cara para uma cidade que
se intitula religiosa e acolhedora – também virou motivo de vergonha. A
Capelinha de Santa Rita, um dos principais pontos de visitação, tem acesso por
uma escadaria de 187 degraus. Para idosos e pessoas com mobilidade reduzida, há
um caminho alternativo, mas sem qualquer sinalização. Moradores relatam que,
diariamente, precisam orientar turistas perdidos, e os vereadores têm repetido
esse pedido há meses: placas, acessibilidade, respeito ao visitante. Até agora,
nada.
“Só nesses 15 dias, já levei dois ônibus mostrando o
caminho”, desabafou um parlamentar, evidenciando que a prefeitura delegou a
moradores e edis a função que deveria ser do poder público.
Conclusão: o cansaço de quem avisa e o silêncio de quem
deveria agir
O que se vê em Cássia é um retrato de descompasso entre alguns
do Legislativo, que tenta cumprir seu papel fiscalizador e propositivo, e o
Executivo, que parece ensurdecido diante dos problemas. Esses vereadores estão
cansados – não de trabalhar, mas de repetir as mesmas denúncias sem ver
soluções. A administração municipal, por sua vez, acumula processos em
potencial, obras inacabadas, servidores em situação irregular e uma população
cada vez mais descrente.
A cidade merece mais do que promessas e debates estéreis.
Merece ação. E os vereadores, por mais que se esforcem, não podem governar
sozinhos. Chega de enrolação – o tempo de respostas já passou, e a conta desse
descaso será cobrada, cedo ou tarde, nas urnas e nos tribunais.

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