Máquinas do Jornal A Vanguarda: patrimônio histórico não pode ser tratado como sucata
As imagens recentemente divulgadas mostrando as antigas máquinas da gráfica do tradicional jornal A Vanguarda jogadas entre entulhos, materiais de construção e sucatas despertaram indignação em grande parte da população de Cássia. Mais do que equipamentos antigos, essas máquinas representam um importante capítulo da história do município.
Durante décadas, foi por meio delas que notícias, acontecimentos, documentos históricos, anúncios e fatos marcantes da cidade chegaram às mãos da população. Antes da internet e das redes sociais, A Vanguarda era um dos principais meios de comunicação do município, registrando acontecimentos que hoje fazem parte da memória coletiva de Cássia.
Também fui colaborador desse jornal. Nas décadas de 1970, 1980 e nos anos 2000 escrevi diversas matérias, contos e textos publicados em suas páginas. Assim como muitos cidadãos, utilizei esse veículo para transmitir ideias e participar da vida da comunidade. Por isso, ver essas máquinas abandonadas causa profunda tristeza.
Independentemente de estarem ou não em funcionamento, seu valor histórico permanece intacto. Elas simbolizam uma época em que a informação era produzida artesanalmente, preservando fatos que hoje ajudam a contar a história de nossa cidade.
A Constituição Federal, em seu artigo 216, reconhece como patrimônio cultural os bens materiais que possuem referência à identidade, à memória e à história da sociedade, determinando que o Poder Público tem o dever de promover sua proteção e preservação.
Diante dessa situação, cabe aos vereadores exercerem seu papel de fiscalização e defesa do patrimônio público. Eles podem solicitar informações oficiais ao Executivo, requerer a suspensão de qualquer venda ou descarte dessas máquinas, provocar a atuação do Conselho Municipal de Patrimônio Histórico, propor seu tombamento municipal e, se necessário, encaminhar representação ao Ministério Público para apuração dos fatos.
O que está em discussão não é apenas um conjunto de equipamentos antigos. Está em jogo a preservação da memória de Cássia. Uma administração pública existe para construir, organizar, preservar e transmitir às futuras gerações aquilo que representa sua identidade.
Se essas máquinas desaparecerem, desaparecerá também uma parte da história escrita do município. As novas gerações talvez sequer acreditem que Cássia possuía um jornal impresso capaz de registrar, semana após semana, os acontecimentos que moldaram sua trajetória.
Mesmo que o município ainda não disponha de um museu ou espaço adequado para exposição permanente, isso não justifica tratar um patrimônio histórico como sucata. É preferível mantê-lo protegido e conservado até que exista um local apropriado do que permitir sua destruição ou alienação.
Preservar a memória não significa viver do passado. Significa respeitar a história que construiu o presente. Assim como encontramos nos livros, documentos e monumentos a prova da existência de grandes acontecimentos da humanidade, também devemos preservar os objetos que contam a história de nossa própria cidade.
Espera-se que o Poder Executivo esclareça a situação dessas máquinas e adote imediatamente medidas para garantir sua conservação. Da mesma forma, espera-se que a Câmara Municipal, o Conselho de Patrimônio Histórico e toda a sociedade civil atuem para impedir que um patrimônio de valor inestimável seja perdido para sempre.
A história de um município não pode ser vendida como ferro-velho

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