O Presidente, a Cadeira e os Cinco Sentidos
“Não preciso de cargo para sentir a cidade. Preciso
que a cidade sinta a si mesma.”
Eu não tenho solução para todos os problemas. E,
com toda a humildade que carrego no peito, nunca pretendi ter cargo, nem ser
bajulador de gestores, nem frequentar círculos fechados onde se decide o
destino dos outros sem consultar os próprios afetados. Não sou agregado de
ninguém, a não ser da cidade onde nasci e das pessoas que nela vivem,
trabalham, lutam e sobrevivem.
Tradicionalmente, aceitamos que nós, seres humanos,
possuímos cinco sentidos principais. E é por meio deles que percebemos o mundo
ao nosso redor. Podemos usá-los para nos proteger e, silenciosamente, também
para auxiliar outros, sejam eles do nosso círculo de convivência ou não.
Mas proteger uma cidade não se faz dentro de um lavatório.
Protege-se uma cidade com olhos que enxergam o
esgoto a céu aberto; com ouvidos que escutam o choro da mãe que não tem remédio
ou leite para o filho; com mãos que ajudam a tapar os buracos das ruas; com o
nariz que sente o cheiro de mofo e abandono; e com a boca que não se cala
diante da injustiça, mas também sabe compartilhar o pão com quem não tem nada.
Voltar ao passado e trazer para o presente erros e
acertos não significa que eu tenha a chave do futuro. Sei, isso sim, que os
acertos do passado podem fortalecer o futuro. Mas um erro do passado, quando
repetido sem vergonha e sem aprendizado, deixa de ser apenas um erro antigo e
passa a produzir desgraças no presente.
E talvez a maior desgraça que conheço seja
acreditar que um só homem ou uma só mulher
pode salvar uma comunidade inteira.
Por isso, com todo o respeito e carinho ao leitor, encontrem-me
na fila do pão, na porta da UBS, no meio da rua, no barulho da obra que nunca
termina. É nesses lugares que estamos. Lá, sentados no mesmo meio-fio, a gente
troca ideia. E, trocando ideia, descobre que a solução não está em mim está em nós.
Eu não quero ser mais nem menos que ninguém. Sou
igual. Tenho os mesmos medos, as mesmas contas para pagar, a mesma angústia
diante do noticiário e a mesma alegria quando vejo uma criança correndo na
praça.
E é justamente essa igualdade que me move a
escrever.
Não para ditar regras, não para me colocar acima de
ninguém, mas para lembrar que a memória coletiva é um dos maiores patrimônios
que possuímos e que ninguém deveria ter o direito de apagá-la.
Se olharmos para trás, veremos acertos que nos
fortaleceram: mãos que ergueram creches, vizinhos que cuidaram de vizinhos
durante as enchentes, professores que deram aula sem merenda, mas deram amor e
esperança.
Esses acertos são tijolos para o futuro.
Mas, se olharmos para trás e encontrarmos erros
promessas vazias, obras superfaturadas, vasão vedada, favores trocados por
silêncio, perceberemos que esses erros não são apenas manchas no passado. São
feridas abertas no presente, que insistem em sangrar enquanto fingimos que não
existem.
Mas eu não estou aqui para apontar o dedo.
Estou aqui para estender o jeito.
E a caráter que estendo não quer um cargo. Quer,
isso sim, que você que está lendo estas
palavras agora — pare por cinco minutos e use os seus próprios sentidos.
Veja o que está sendo esquecido no
seu bairro.
Ouça a voz de quem não tem vez.
Toque no ombro de quem precisa de
amparo.
Sinta o cheiro do abandono e reaja a
ele.
Prove o amargo da indiferença e
decida que amanhã pode ser mais doce.
Se eu fosse um administrador, seria um
administrador solitário, porque administrar sozinho é o mesmo que conduzir uma
cidade para o precipício. Prefiro ser um anotador de calçada, um enviado de
esquina, um contador de histórias que não se cansa de repetir: a cidade
somos nós.
Não os de cima, não os de fora. Nós, que
acordamos cedo, que pegamos ônibus lotado para ir à lavoura, que enfrentamos as
dificuldades do dia a dia e que, mesmo cansados, ainda encontramos motivos para
sorrir.
Ao que me indica ou comenta sem conhecer a minha
história, digo: guarde essa sua energia de confiança. Mas não a deposite em
mim.
Deposite-a na sua própria identidade.
Participe da reunião do bairro. Pergunte ao idoso
da sua rua como ele está. Escute quem precisa ser ouvido. Cobre do vereador,
sim. Cobre do prefeito, sim. Cobre dos gestores, sim. Mas cobre também de si
mesmo aquilo que você pode fazer hoje.
Porque o futuro não se constrói com uma faixa.
Constrói-se com mãos sujas de trabalho, com vozes
roucas de tanto reivindicar, com olhos marejados de esperança — mas esperança
ativa, não passiva.
Esperança que levanta da cadeira.
Esperança que sai de casa.
Esperança que participa.
Termino como comecei: não tenho solução para todos
os problemas.
Mas tenho uma certeza que nenhum cargo pode
comprar: eu sou um de vocês.
E, enquanto for um de vocês, continuarei
escrevendo. Não para agradar gestores, nem para me colocar acima de ninguém,
mas para ser ouvido por todos como igual.
Se um dia eu me assentar na bancada de um caixão,
que seja para partir em paz, sabendo que deixei pouco, mas deixei aquilo que
pude registrar, sem me vender, sem me calar e sem abocanhar aquilo que não me
pertencia.
Até lá, continuo na minha cadeira de escritor.
Uma cadeira humilde, que range um pouco, mas que
tem espaço para todo mundo que quiser sentar ao meu lado e construir junto.
Principalmente pela cidade.
Principalmente pelo povo.
Porque, no fim das contas, nenhum presidente,
nenhum governador, nenhum prefeito, nenhum vereador, nenhum abastado e nenhum
escritor é maior que a cidade.
A cidade e seu povo são maiores que todos nós.
E uma cidade só começa a mudar de verdade quando o
seu povo decide enxergá-la, ouvi-la, senti-la e, principalmente, participar da
sua construção, sem deixar as coisas boas pelo caminho e sem permitir que as
ruins sequer comecem.
Porque o ontem é a memória do hoje, e o hoje é a
construção do futuro.
O dever de todos nós é enxergar antes que aconteça.
É aprender com o ontem, agir no hoje e impedir que os erros de amanhã se tornem
realidade.

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