.feed-links{display:none !important;

Total de visitas

domingo, 16 de agosto de 2026

O Presidente, a Cadeira e os Cinco Sentidos


 

O Presidente, a Cadeira e os Cinco Sentidos

“Não preciso de cargo para sentir a cidade. Preciso que a cidade sinta a si mesma.”

Eu não tenho solução para todos os problemas. E, com toda a humildade que carrego no peito, nunca pretendi ter cargo, nem ser bajulador de gestores, nem frequentar círculos fechados onde se decide o destino dos outros sem consultar os próprios afetados. Não sou agregado de ninguém, a não ser da cidade onde nasci e das pessoas que nela vivem, trabalham, lutam e sobrevivem.

Tradicionalmente, aceitamos que nós, seres humanos, possuímos cinco sentidos principais. E é por meio deles que percebemos o mundo ao nosso redor. Podemos usá-los para nos proteger e, silenciosamente, também para auxiliar outros, sejam eles do nosso círculo de convivência ou não.

Mas proteger uma cidade não se faz dentro de um lavatório.

Protege-se uma cidade com olhos que enxergam o esgoto a céu aberto; com ouvidos que escutam o choro da mãe que não tem remédio ou leite para o filho; com mãos que ajudam a tapar os buracos das ruas; com o nariz que sente o cheiro de mofo e abandono; e com a boca que não se cala diante da injustiça, mas também sabe compartilhar o pão com quem não tem nada.

Voltar ao passado e trazer para o presente erros e acertos não significa que eu tenha a chave do futuro. Sei, isso sim, que os acertos do passado podem fortalecer o futuro. Mas um erro do passado, quando repetido sem vergonha e sem aprendizado, deixa de ser apenas um erro antigo e passa a produzir desgraças no presente.

E talvez a maior desgraça que conheço seja acreditar que um só homem  ou uma só mulher pode salvar uma comunidade inteira.

Por isso, com todo o respeito e carinho ao leitor, encontrem-me na fila do pão, na porta da UBS, no meio da rua, no barulho da obra que nunca termina. É nesses lugares que estamos. Lá, sentados no mesmo meio-fio, a gente troca ideia. E, trocando ideia, descobre que a solução não está em mim está em nós.

Eu não quero ser mais nem menos que ninguém. Sou igual. Tenho os mesmos medos, as mesmas contas para pagar, a mesma angústia diante do noticiário e a mesma alegria quando vejo uma criança correndo na praça.

E é justamente essa igualdade que me move a escrever.

Não para ditar regras, não para me colocar acima de ninguém, mas para lembrar que a memória coletiva é um dos maiores patrimônios que possuímos e que ninguém deveria ter o direito de apagá-la.

Se olharmos para trás, veremos acertos que nos fortaleceram: mãos que ergueram creches, vizinhos que cuidaram de vizinhos durante as enchentes, professores que deram aula sem merenda, mas deram amor e esperança.

Esses acertos são tijolos para o futuro.

Mas, se olharmos para trás e encontrarmos erros promessas vazias, obras superfaturadas, vasão vedada, favores trocados por silêncio, perceberemos que esses erros não são apenas manchas no passado. São feridas abertas no presente, que insistem em sangrar enquanto fingimos que não existem.

Mas eu não estou aqui para apontar o dedo.

Estou aqui para estender o jeito.

E a caráter que estendo não quer um cargo. Quer, isso sim, que você  que está lendo estas palavras agora — pare por cinco minutos e use os seus próprios sentidos.

Veja o que está sendo esquecido no seu bairro.

Ouça a voz de quem não tem vez.

Toque no ombro de quem precisa de amparo.

Sinta o cheiro do abandono e reaja a ele.

Prove o amargo da indiferença e decida que amanhã pode ser mais doce.

Se eu fosse um administrador, seria um administrador solitário, porque administrar sozinho é o mesmo que conduzir uma cidade para o precipício. Prefiro ser um anotador de calçada, um enviado de esquina, um contador de histórias que não se cansa de repetir: a cidade somos nós.

Não os de cima, não os de fora. Nós, que acordamos cedo, que pegamos ônibus lotado para ir à lavoura, que enfrentamos as dificuldades do dia a dia e que, mesmo cansados, ainda encontramos motivos para sorrir.

Ao que me indica ou comenta sem conhecer a minha história, digo: guarde essa sua energia de confiança. Mas não a deposite em mim.

Deposite-a na sua própria identidade.

Participe da reunião do bairro. Pergunte ao idoso da sua rua como ele está. Escute quem precisa ser ouvido. Cobre do vereador, sim. Cobre do prefeito, sim. Cobre dos gestores, sim. Mas cobre também de si mesmo aquilo que você pode fazer hoje.

Porque o futuro não se constrói com uma faixa.

Constrói-se com mãos sujas de trabalho, com vozes roucas de tanto reivindicar, com olhos marejados de esperança — mas esperança ativa, não passiva.

Esperança que levanta da cadeira.

Esperança que sai de casa.

Esperança que participa.

Termino como comecei: não tenho solução para todos os problemas.

Mas tenho uma certeza que nenhum cargo pode comprar: eu sou um de vocês.

E, enquanto for um de vocês, continuarei escrevendo. Não para agradar gestores, nem para me colocar acima de ninguém, mas para ser ouvido por todos como igual.

Se um dia eu me assentar na bancada de um caixão, que seja para partir em paz, sabendo que deixei pouco, mas deixei aquilo que pude registrar, sem me vender, sem me calar e sem abocanhar aquilo que não me pertencia.

Até lá, continuo na minha cadeira de escritor.

Uma cadeira humilde, que range um pouco, mas que tem espaço para todo mundo que quiser sentar ao meu lado e construir junto.

Principalmente pela cidade.

Principalmente pelo povo.

Porque, no fim das contas, nenhum presidente, nenhum governador, nenhum prefeito, nenhum vereador, nenhum abastado e nenhum escritor é maior que a cidade.

A cidade e seu povo são maiores que todos nós.

E uma cidade só começa a mudar de verdade quando o seu povo decide enxergá-la, ouvi-la, senti-la e, principalmente, participar da sua construção, sem deixar as coisas boas pelo caminho e sem permitir que as ruins sequer comecem.

Porque o ontem é a memória do hoje, e o hoje é a construção do futuro.

O dever de todos nós é enxergar antes que aconteça. É aprender com o ontem, agir no hoje e impedir que os erros de amanhã se tornem realidade.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário