SUS: A JOIA DA JUSTIÇA SOCIAL BRASILEIRA QUE INSPIRA O
MUNDO
Pense em um lugar onde sua conta bancária não define o
tratamento que você recebe. Onde sua cor, sua profissão, sua religião ou seu
endereço não são critérios para determinar se você terá atendimento médico.
Esse lugar existe, é brasileiro e se chama Sistema Único de Saúde — SUS.
Completando 38 anos em 2026, o SUS é muito mais do que uma
política pública. É um dos maiores projetos de inclusão social já construídos
no mundo e um verdadeiro pacto civilizatório que desafia a lógica de uma
sociedade cada vez mais desigual.
Não é privilégio. Não é favor. Saúde é um direito de todas
as pessoas e um dever do Estado. O SUS não é apenas um arranjo administrativo;
é uma conquista social que transformou a cidadania em realidade para milhões de
brasileiros.
A ideia é simples, mas revolucionária: garantir acesso à
saúde para todos, sem qualquer tipo de distinção. Esse princípio recebe o nome
de universalidade. Na prática, significa que o empresário e o catador de
recicláveis podem ser atendidos na mesma unidade, pelo mesmo profissional, com
o mesmo direito à dignidade, ao respeito e ao cuidado.
Um modelo que inspira o mundo
Para se ter uma ideia da dimensão dessa conquista, o Brasil
é o único país com mais de 200 milhões de habitantes que oferece acesso
universal e gratuito à saúde. O SUS disponibiliza desde vacinas e medicamentos
até transplantes de órgãos, tratamentos de câncer e cirurgias de alta
complexidade.
Atualmente, mais de 160 milhões de brasileiros dependem
exclusivamente do sistema público de saúde para receber atendimento.
Essa grandiosidade não passou despercebida
internacionalmente. Representantes da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS)
já classificaram o SUS como uma das maiores políticas de inclusão social do
planeta e uma inspiração para diversos países das Américas.
Para especialistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), o SUS
é uma verdadeira joia do Estado brasileiro. "O SUS é um modelo
internacional de sucesso. Claro que possui problemas, até porque é gigantesco.
Mas representa um extraordinário modelo de democracia, baseado na cobertura
universal da saúde."
Inspiração além das fronteiras
A originalidade do SUS é tão relevante que seu modelo de
Atenção Primária vem sendo estudado por países desenvolvidos.
O jornal britânico The Telegraph publicou uma reportagem
questionando se um "projeto radical das favelas do Brasil" poderia
ajudar a salvar o sistema de saúde inglês, o NHS, que enfrenta uma profunda
crise.
O destaque está no trabalho dos Agentes Comunitários de
Saúde, profissionais que visitam residências, criam vínculos de confiança com
as famílias e atuam diretamente na prevenção de doenças. Inspirado nessa
experiência brasileira, o NHS passou a testar projetos-piloto em bairros de
Londres, com a perspectiva de expansão para outras regiões da Inglaterra.
Resultados que mudam vidas
Mais do que servir de inspiração internacional, o SUS produz
resultados concretos.
A expectativa de vida dos brasileiros aumentou
significativamente nas últimas décadas. Entre 2000 e 2022, houve um crescimento
de 6,8 anos. No mesmo período, a mortalidade infantil caiu de 32 para 14 óbitos
por mil nascidos vivos.
Esses avanços não aconteceram por acaso. São consequência de
um sistema que alcança praticamente todo o território nacional e está presente
em cerca de 90% dos municípios brasileiros. Por trás desses números existem
milhões de vidas salvas, doenças prevenidas, tratamentos realizados e famílias
amparadas.
Os desafios que ainda precisam ser enfrentados
Nenhuma obra humana é perfeita, e o SUS enfrenta desafios
permanentes.
A insuficiência de financiamento, as filas para
procedimentos especializados, a carência de profissionais em determinadas
regiões e as desigualdades entre áreas urbanas e rurais continuam sendo
obstáculos importantes.
Estudos da Fiocruz mostram que os grandes centros urbanos
costumam oferecer serviços mais estruturados do que regiões remotas,
evidenciando uma desigualdade que ainda precisa ser superada.
Reconhecer esses problemas não diminui a importância do SUS.
Pelo contrário: reforça a necessidade de fortalecê-lo, aprimorá-lo e garantir
que cumpra sua missão de forma cada vez mais eficiente.
Enquanto países como os Estados Unidos ainda discutem formas
de ampliar o acesso à saúde e milhões de pessoas permanecem sem cobertura
adequada, o Brasil mantém um princípio consagrado pela Constituição Federal de
1988: a saúde é um direito de todos.
Talvez a grandeza do SUS não esteja em ser perfeito, mas em
ser justo. Em um país marcado por profundas desigualdades sociais, ele
representa a garantia de que, pelo menos na hora de cuidar da vida, todos são
iguais perante o atendimento à saúde. Se não existe outro sistema exatamente
igual ao SUS no mundo, talvez seja porque poucos países tiveram a coragem de
construir um projeto tão ambicioso e humano. Um projeto chamado justiça social.
Ainda tem gente que fala mal do SUS
"Falam mal, mas na hora da emergência correm para
ele"
Por que criticar o SUS virou quase um esporte nacional e
defendê-lo se tornou, muitas vezes, um ato de resistência? Sim, ainda existe
muita gente que fala mal do SUS.
Nas redes sociais, nos grupos de família, nos bares, nas
filas dos bancos e em conversas do cotidiano, é comum ouvir frases como: "O
SUS é um lixo." "Não funciona." "Só serve para quem não tem
plano de saúde." "É um buraco sem fundo para os impostos."
Mas frequentemente acontece uma
mudança repentina de perspectiva. Basta surgir uma emergência. Um acidente de
trânsito. Uma dor forte no peito. Uma criança com febre alta. Uma suspeita de
dengue grave.
Nesses momentos, para onde essa mesma pessoa costuma correr?
Para o SUS.
Porque o plano de saúde pode demorar para autorizar
procedimentos. Porque o hospital particular mais próximo pode estar distante.
Porque o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) está disponível para
atender rapidamente quando a vida corre risco. O SUS atende cerca de 70% da
população brasileira que não possui plano de saúde.
E mesmo entre aqueles que possuem convênio médico, a maioria
já utilizou algum serviço do SUS, seja para vacinação, exames, transplantes,
internações, medicamentos do Farmácia Popular ou atendimentos de urgência e
emergência.
De onde vem tanta rejeição ao SUS? As críticas ao SUS
não surgiram do nada. Elas costumam estar associadas a três fatores principais.
O subfinanciamento histórico. O sistema enfrenta há
décadas dificuldades relacionadas ao financiamento. Quando faltam
recursos, surgem filas maiores, equipamentos insuficientes, estruturas
sobrecarregadas e profissionais trabalhando além do limite. Nesse
contexto, muitas pessoas culpam o SUS pelos problemas, quando grande parte
deles decorre justamente da falta de investimentos adequados. É como
responsabilizar o médico pela doença do paciente. O problema não está
necessariamente no sistema, mas nos recursos disponíveis para que ele funcione
plenamente.
A construção de uma imagem negativa
Ao longo dos anos, o SUS também se tornou alvo de disputas
ideológicas e políticas. Expressões como "SUS é coisa de pobre" ou
afirmações que desqualificam profissionais da saúde pública foram repetidas
inúmeras vezes, contribuindo para uma visão distorcida da realidade. Em muitos
casos, cria-se a ideia de que somente a saúde privada oferece qualidade,
enquanto a saúde pública seria sinônimo de ineficiência. Essa narrativa ignora
milhares de atendimentos, cirurgias, transplantes, campanhas de vacinação e
ações de prevenção realizadas diariamente.
A valorização exagerada do que vem de fora
Existe ainda um comportamento cultural bastante presente em
parte da sociedade brasileira: valorizar automaticamente o que é estrangeiro e
menosprezar aquilo que é nacional. Enquanto países desenvolvidos estudam
aspectos do SUS, muitos brasileiros continuam tratando o sistema como símbolo
de atraso.
É uma contradição evidente. "As pessoas falam mal do
SUS até precisarem dele. Quando a vida está em jogo, ninguém pergunta se o
médico é do SUS ou não. O que importa é receber atendimento. E o SUS
atende."
O que muitos críticos ignoram
Quando alguém afirma que "o SUS não presta", vale
refletir sobre algumas perguntas. Quem realizou as campanhas que vacinaram
milhões de crianças brasileiras contra a poliomielite? O SUS.
Quem liderou ações fundamentais para o controle de doenças
como sarampo e outras enfermidades imunopreveníveis? O SUS.
Quem realiza um dos maiores programas públicos de
transplantes de órgãos do mundo? O SUS.
Quem distribuiu milhões de vacinas durante a pandemia de
COVID-19 e garantiu acesso gratuito à imunização? O SUS.
Quem possibilita que um trabalhador rural do interior do
país receba um transplante de coração, incluindo toda a complexa logística
necessária para esse procedimento? O SUS.
O sistema possui defeitos. As filas existem. As demoras
existem. Os problemas de gestão existem. Mas é preciso reconhecer a dimensão do
desafio de oferecer atendimento a mais de 200 milhões de habitantes em um país
continental.
A hipocrisia da frase "SUS é para pobre"
Uma das frases mais injustas e preconceituosas é afirmar que
"o SUS é para pobre". Essa declaração revela desconhecimento sobre o
próprio sistema.
Muitas vezes, quem faz essa afirmação já utilizou serviços
do SUS e sequer percebeu. Além disso, a frase carrega uma visão elitista, como
se pessoas de menor renda merecessem um atendimento inferior. A realidade é
exatamente o contrário. O SUS é universal. Ele não pergunta quanto dinheiro
você possui. Não pergunta sua cor. Não pergunta sua religião. Não pergunta sua
orientação política. Não pergunta sua posição social. Pergunta apenas de que
cuidado você precisa. E essa característica incomoda quem acredita que saúde
deve ser tratada como mercadoria e não como direito.
Se é tão ruim, por que tantos países estudam o SUS?
O sistema brasileiro é referência internacional em diversas
áreas. Vacinação em massa e vigilância epidemiológica. Atenção Primária baseada
em agentes comunitários de saúde. Programas públicos de transplantes. Políticas
de enfrentamento ao HIV/AIDS. Distribuição de medicamentos por meio da Farmácia
Popular. Essas experiências são estudadas por governos, universidades e
organismos internacionais.
A Organização Mundial da Saúde já
reconheceu o SUS como um dos sistemas públicos mais inclusivos e equitativos do
mundo. Por isso, quando um brasileiro afirma que o SUS não funciona, muitas
vezes está reproduzindo uma visão simplificada que não corresponde à
complexidade e à dimensão real do sistema.
Crítica é necessária. Desinformação, não.
Defender o SUS não significa afirmar que ele é perfeito. O
sistema precisa de mais investimentos. Precisa de melhor gestão. Precisa
valorizar seus profissionais. Precisa reduzir filas. Precisa modernizar
processos e ampliar o acesso a tecnologias. Essas são críticas legítimas e
construtivas.
São críticas feitas, inclusive, por
quem mais acredita na importância do SUS.
O que não se sustenta é afirmar que
o sistema não funciona ou que deveria deixar de existir. Para cerca de 160
milhões de brasileiros, o SUS não é uma teoria. É a diferença entre receber
atendimento ou não receber. É a diferença entre viver e morrer. É a maior
política de inclusão social já construída pelo país.
O SUS não pertence à esquerda nem à
direita. Não pertence a governos. Não pertence a partidos. Pertence ao povo
brasileiro. E enquanto houver quem tente desqualificá-lo, haverá também quem
lembre uma verdade simples:
O SUS salva vidas todos os dias. Inclusive
a sua, mesmo que você não perceba. O SUS não é perfeito. Mas é nosso.
E continua sendo uma das maiores
conquistas sociais da história do Brasil.

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