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terça-feira, 19 de maio de 2026

Congo e Moçambique: a fé que já moveu uma cidade e hoje luta para não desaparecer

 

Congo e Moçambique: a fé que já moveu uma cidade e hoje luta para não desaparecer


A era de ouro do Congado Cassiense marcou gerações e transformou a tradição religiosa em um dos maiores símbolos de fé, união e identidade cultural de Cássia (MG)

Cássia viveu, também um pouco antes das décadas de 1960 e 1970 — com reflexos ainda no início dos anos 1980 — um dos períodos mais marcantes de sua história cultural e religiosa. Foi a época em que o Congo e o Moçambique enchiam as ruas da cidade de cor, devoção, música e espiritualidade popular.

Quem viveu aqueles anos guarda lembranças que ainda emocionam. Os ternos saíam organizados pelas ruas, as caixas ecoavam pelos bairros, as bandeiras eram conduzidas com respeito e os cantos religiosos reuniam famílias inteiras em torno da fé. O Congado não era visto apenas como apresentação cultural. Era, acima de tudo, uma manifestação religiosa viva, profundamente ligada à devoção a Nossa Senhora do Rosário, Santa Efigênia e São Benedito.

“Naquele tempo, o congado era compromisso de fé. Não era diversão vazia e nem interesse financeiro. Era promessa, tradição e respeito”, recorda um antigo congadeiro da cidade.

Quando a tradição era passada de geração em geração

Um dos aspectos mais fortes daquele período era a participação da juventude. Crianças e adolescentes cresciam admirando os ternos e querendo fazer parte deles. Muitos aprendiam ainda pequenos a tocar caixa, carregar bandeira, cantar entoando os versos tradicionais e acompanhar os cortejos religiosos.

As roupas dos congadeiros eram confeccionadas com enorme dedicação. Muitas vezes, as próprias famílias tiravam dinheiro do bolso para bordar fardas, preparar adereços e manter viva a beleza dos ternos. Havia orgulho em representar a tradição.

O resultado era uma festa religiosa organizada, respeitada e aguardada por todos da cidade. As ruas ficavam movimentadas, as famílias acompanhavam os cortejos e a fé popular encontrava espaço legítimo dentro da comunidade católica local.

O apoio da Igreja Católica era fundamental

Na memória dos antigos congadeiros, existe um consenso: o grande diferencial daquela época era o envolvimento direto da Igreja Católica.

Os padres compreendiam que Congo e Moçambique não eram apenas manifestações folclóricas. Eram expressões legítimas da religiosidade popular. Por isso, apoiavam os ternos, acolhiam os congadeiros nas missas, organizavam novenas, ajudavam na logística das festas e mantinham viva a ligação espiritual da tradição.

“O padre estava junto do povo. Ele entendia o valor religioso do congado”. “A Igreja não tratava aquilo como algo separado da fé. Pelo contrário: fazia parte da própria vivência religiosa da cidade.”

Esse apoio dava força, organização e continuidade à tradição. Os festejos tinham calendário, planejamento e participação popular constante.

O início do enfraquecimento da tradição

Segundo relatos dos próprios congadeiros mais antigos, o enfraquecimento do congado em Cássia começou quando o padre que liderava e incentivava os festejos adoeceu. Sem a mesma presença da Igreja na organização religiosa, os ternos começaram a perder espaço, ensaios e apoio estrutural. Aos poucos, a engrenagem que mantinha viva a tradição começou a falhar.

“Depois que o padre ficou doente, muita coisa foi esfriando. O congado foi ficando sem direção e sem apoio contínuo”, conta uma congadeira aposentada.

A partir daí, os grupos passaram a depender de ajudas esporádicas de administrações públicas, lideranças políticas ou colaboradores isolados. Mas, sem uma rede permanente de incentivo, muitos ternos acabaram desaparecendo.

Da devoção ao risco da descaracterização

Outro ponto lamentado pelos antigos guardiões da tradição é a mudança no espírito da festa. Antigamente, a motivação principal era religiosa. Muitos participavam por promessas feitas aos santos, devoção familiar ou respeito à tradição herdada dos antepassados. O dinheiro não ocupava o centro da celebração.

Hoje, segundo antigos mestres de congada, parte dessa essência vem se perdendo. “Antes, o congadeiro fazia sacrifício para manter o terno vivo. Hoje, muitas vezes, se pergunta primeiro quanto vai ganhar para participar”, relata um antigo integrante da tradição.

Os mais velhos reconhecem que os tempos mudaram e que dificuldades econômicas existem. Porém, afirmam que o principal problema é a ausência de incentivo coletivo para preservar o verdadeiro sentido religioso do congado.

A responsabilidade não pode cair sobre poucas pessoas

Os defensores da tradição afirmam que ninguém consegue manter sozinho uma herança cultural tão importante. Para que o congado sobreviva em Cássia, seria necessário um esforço conjunto entre Igreja, Prefeitura, Câmara Municipal, escolas, comércio local, produtores rurais e população.

As escolas municipais, por exemplo, poderiam trabalhar a história do congado em projetos culturais e educativos, aproximando crianças e adolescentes da tradição. O comércio poderia colaborar com pequenas ajudas para uniformes, alimentação e transporte. A Prefeitura poderia ampliar o suporte estrutural e inserir os festejos de maneira permanente no calendário cultural oficial do município.

Além disso, muitos acreditam que a Igreja ainda possui papel central nesse processo por causa da origem religiosa do Congo e do Moçambique. “Se a Igreja tivesse disposição para fortalecer novamente o festejo religioso, tudo seria mais fácil, porque ela possui estrutura, espaço e alcance comunitário”, avalia uma professora aposentada que durante anos levou alunos para acompanhar as congadas.

Mais que dança e música: um patrimônio espiritual e cultural

O congado carrega séculos de história, resistência negra, devoção católica popular e identidade comunitária. Em cidades mineiras, ele representa um patrimônio imaterial precioso, construído pela fé do povo ao longo das gerações.

Em Cássia, moradores ainda se emocionam ao recordar os cortejos saindo da Igreja de Santa Efigênia, considerada por muitos o berço do congado cassiense, rumo às ruas enfeitadas da cidade. Hoje, porém, o silêncio ocupa espaços onde antes ressoavam caixas, tambores e cantos religiosos.

O que ainda pode ser feito?

Os guardiões da memória afirmam que ainda há tempo para preservar essa tradição — desde que exista união e interesse coletivo.

As reivindicações são simples: maior incentivo religioso e comunitário; apoio cultural contínuo; participação das escolas; criação de políticas de preservação; valorização dos mestres congadeiros; estímulo à participação dos jovens; colaboração do comércio e da sociedade. “Não é luxo”, resume uma congadeira ainda ativa. “Queremos apenas que lembrem que o congado existe e que ele faz parte da alma de Cássia.”

Uma tradição que pede socorro

Enquanto não houver mobilização conjunta com a igreja a frente, o Congo e o Moçambique de Cássia continuarão correndo o risco de desaparecer lentamente. E junto com eles pode desaparecer também uma parte importante da memória religiosa, cultural e afetiva da cidade.

Porque o congado não é apenas festa. É fé. É história. É identidade. É herança de um povo inteiro.

 

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