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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

DO MELHOR CARNAVAL DA REGIÃO AO GORO DAS ALTAS HORAS

 

DO MELHOR CARNAVAL DA REGIÃO AO GORO DAS ALTAS HORAS

 


Tempos que se foram — e bons mesmos. Houve uma época em que o Carnaval de Cássia era reconhecido como o melhor de todo o sul mineiro entre as cinquenta e quatro cidades da regional. Não faz tanto tempo assim; parece até que ainda ecoa no ar o som dos tamborins e das marchinhas. Esperávamos o ano inteiro, numa aflição alegre, contando os dias para chegar fevereiro. E havia algo curioso: sentíamos gosto até de sair de Rio de Janeiro — a capital mundial do carnaval — para vivenciar o que, para nós, era o verdadeiro reinado da folia regional. Era sentimento profundo, coisa de alma mesmo, daqueles que não se explica, só se vive.

Havia foliões que passavam o ano juntando seus tico ticos lá em São Paulo só para garantir a viagem e não perder o festejo. Muitos vinham especialmente para desfilar nos blocos tradicionais — Cartolas, Marujos, Adis Abafa, Índios e tantos outros — que desciam animados pela Avenida Luciano Batista até a praça Barão de Cambuí e na  famosa subidinha em frente à Casas Pernambucanas. Ali, apenas as lendárias cordas de bacalhau separavam o público dos desfilantes. Sobre passarelas de mateira improvisadas, cada participante exibia seu samba no pé, seu batuque, sua fantasia e sua alegria, como se fosse artista de escola grande.

Participei desse carnaval desde os seis anos de idade até por volta de dois mil e dois. Já não era mais exatamente o mesmo, é verdade, mas ainda dava para se alegrar sem muita baderna ou confusão. Depois de dois mil e quatro, porém, a mudança veio como vento torto: arrancaram o aglomerado de árvores que sombreava a praça e levantaram palanques para bandas que inventaram um carnaval que nunca existiu por aqui. Com elas chegaram a fumaça que foi se apoderando do ar limpo e inocente dos foliões, além de todo tipo de ondas pesadas chegou junto, onde os pais, os mais equilibrados e a disciplina não dão conta  de equilibrar o ambiente de tanto loucos que surgem em cada carnaval. Os ruídos estranhos e um tipo de agitação que não combina com a inocência dos foliões tradicionais.

Surge então a pergunta que ecoa na consciência: que pai ou mãe responsável leva seus filhos para um ambiente onde a alegria genuína é substituída por um ar carregado e por comportamentos desvairados? Carnaval de verdade — aquele de corpo e alma — é feito de blocos, marchinhas, samba, frevo, axé, maracatu, serpentina e confete. É arlequim sorrindo, é fantasia simples, é música que abraça. O carnaval mineiro, em sua essência apropriada, sempre foi desfile de blocos, batuque ritmado e grandes bailes de salão onde a música contagiava sem precisar de exageros.

Nos últimos anos, entretanto, tornou-se visível a redução no número de foliões. A praça antes cheia de vida, energia e tradição deu lugar a espaços vazios e a um sentimento coletivo de frustração. Muitos desejam apenas enfeitar, cantar e brincar — alimentar a alma com melodias carnavalescas —, mas já não encontram o mesmo ambiente para isso.

Toda modificação feita sob o argumento de melhoria nem sempre melhora. Às vezes, ao contrário, contribui para um cenário de caos e desilusão. A contratação de bandas caras eleva gastos municipais com estruturas, funcionários e banheiros, sem garantia de retorno real. E junto com a despesa vem aquilo que não se controla fácil: excessos, confusões e situações que a arrecadação de barracas jamais compensa. Quando há contrafação ou números mal explicados, a impressão é de que os olhos públicos recebem bofeteadas cobertas por um manto de picumã — visível para o povo, invisível para quem deveria fiscalizar.

Antigamente, a concentração dos blocos ocorria na praça do antigo Fórum, ponto simbólico de encontro, planejamento e risadas. Dali se via, de longe, o sorriso estampado em cada folião esperando sua vez de descer. Aquilo não era só logística; era parte essencial da experiência cultural cassiense. Era ali que nasciam histórias, amizades e memórias que duravam décadas.

Claro, tudo tem seu jeito, e ninguém ignora que o tempo não volta. Mas é impossível não notar que as gerações anteriores a dois mil pareciam carregar algo especial: um espírito coletivo em que o legado principal era a alegria compartilhada. Hoje, muitas vezes, o que se vê é ilusão barulhenta, gente alucinada, alcoolizada, perdida em excessos que nada têm a ver com tradição. Pergunta-se: para onde caminha essa massa de bizarros cegos que cobra direitos sem saber sequer se os possui?

Para reconstruir um carnaval duradouro, é preciso observar o que realmente funciona. Bandas nem sempre garantem animação; muita gente fica encostada com latinha na mão, imóvel, ou soltando fumaça ao ar, enquanto a música toca. Já quando um bloco desce a rua, surge o harmônico sorriso coletivo. O público assiste, vibra, assim que termina o desfile os pais pega os filhos pelas mãos e volta para casa contente, comentando cada detalhe.

Os que permanecem depois, em geral, são os que exigem vigilância policial e atenção redobrada dos pais, receosos de que a noite termine mal e o filho se lambuze como porco em chiqueiro de barro.

Quanto às conduções musicais, urge resgatar a essência do carnaval cassiense — do jeito que o mineiro aprecia. Em tempos em que muitas letras são depreciativas, machistas ou violentas, cresce o anseio popular por marchinhas, sambas e canções que preservem identidade e respeito.

Bandas que chegam descaracterizando ritmos e estilos acabam alterando o caráter original dos blocos, tornando-os irreconhecíveis, distantes de sua natureza inicial.

É preciso compreender que o sucesso de qualquer festa depende, antes de tudo, da presença e da adesão sincera das pessoas. Quando a população não concorda com os rumos tomados, o sensato é ouvir, ajustar, corrigir e, se necessário, retornar ao que antes satisfazia a todos. Para isso, é indispensável escutar quem mantém acesa a chama dessa tradição: os blocos e os foliões.

Sem os blocos, o Carnaval é morto. Eles são o coração pulsante, a biografia viva e a garantia de continuidade dessa manifestação cultural cassiense. Onde há bloco descendo a rua, há memória, há identidade e há povo. E enquanto houver povo disposto a sorrir ao som de um tamborim, sempre existirá esperança de que o verdadeiro carnaval — aquele de alegria limpa e alma leve — renasça outra vez.

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