DO MELHOR CARNAVAL
DA REGIÃO AO GORO DAS ALTAS HORAS
Tempos que se foram — e bons
mesmos. Houve uma época em que o Carnaval de Cássia era reconhecido como o
melhor de todo o sul mineiro entre as cinquenta e quatro cidades da regional.
Não faz tanto tempo assim; parece até que ainda ecoa no ar o som dos tamborins
e das marchinhas. Esperávamos o ano inteiro, numa aflição alegre, contando os
dias para chegar fevereiro. E havia algo curioso: sentíamos gosto até de sair
de Rio de Janeiro — a capital mundial do carnaval — para vivenciar o que, para
nós, era o verdadeiro reinado da folia regional. Era sentimento profundo, coisa
de alma mesmo, daqueles que não se explica, só se vive.
Havia foliões que passavam o ano
juntando seus tico ticos lá em São Paulo só para garantir a viagem e não perder
o festejo. Muitos vinham especialmente para desfilar nos blocos tradicionais —
Cartolas, Marujos, Adis Abafa, Índios e tantos outros — que desciam animados
pela Avenida Luciano Batista até a praça Barão de Cambuí e na famosa subidinha em frente à Casas Pernambucanas.
Ali, apenas as lendárias cordas de bacalhau separavam o público dos
desfilantes. Sobre passarelas de mateira improvisadas, cada participante exibia
seu samba no pé, seu batuque, sua fantasia e sua alegria, como se fosse artista
de escola grande.
Participei desse carnaval desde
os seis anos de idade até por volta de dois mil e dois. Já não era mais
exatamente o mesmo, é verdade, mas ainda dava para se alegrar sem muita baderna
ou confusão. Depois de dois mil e quatro, porém, a mudança veio como vento
torto: arrancaram o aglomerado de árvores que sombreava a praça e levantaram
palanques para bandas que inventaram um carnaval que nunca existiu por aqui.
Com elas chegaram a fumaça que foi se apoderando do ar limpo e inocente dos
foliões, além de todo tipo de ondas pesadas chegou junto, onde os pais, os mais
equilibrados e a disciplina não dão conta
de equilibrar o ambiente de tanto loucos que surgem em cada carnaval. Os
ruídos estranhos e um tipo de agitação que não combina com a inocência dos
foliões tradicionais.
Surge então a pergunta que ecoa
na consciência: que pai ou mãe responsável leva seus filhos para um ambiente
onde a alegria genuína é substituída por um ar carregado e por comportamentos
desvairados? Carnaval de verdade — aquele de corpo e alma — é feito de blocos,
marchinhas, samba, frevo, axé, maracatu, serpentina e confete. É arlequim
sorrindo, é fantasia simples, é música que abraça. O carnaval mineiro, em sua
essência apropriada, sempre foi desfile de blocos, batuque ritmado e grandes
bailes de salão onde a música contagiava sem precisar de exageros.
Nos últimos anos, entretanto,
tornou-se visível a redução no número de foliões. A praça antes cheia de vida,
energia e tradição deu lugar a espaços vazios e a um sentimento coletivo de
frustração. Muitos desejam apenas enfeitar, cantar e brincar — alimentar a alma
com melodias carnavalescas —, mas já não encontram o mesmo ambiente para isso.
Toda modificação feita sob o
argumento de melhoria nem sempre melhora. Às vezes, ao contrário, contribui
para um cenário de caos e desilusão. A contratação de bandas caras eleva gastos
municipais com estruturas, funcionários e banheiros, sem garantia de retorno
real. E junto com a despesa vem aquilo que não se controla fácil: excessos,
confusões e situações que a arrecadação de barracas jamais compensa. Quando há
contrafação ou números mal explicados, a impressão é de que os olhos públicos
recebem bofeteadas cobertas por um manto de picumã — visível para o povo,
invisível para quem deveria fiscalizar.
Antigamente, a concentração dos
blocos ocorria na praça do antigo Fórum, ponto simbólico de encontro,
planejamento e risadas. Dali se via, de longe, o sorriso estampado em cada
folião esperando sua vez de descer. Aquilo não era só logística; era parte essencial
da experiência cultural cassiense. Era ali que nasciam histórias, amizades e
memórias que duravam décadas.
Claro, tudo tem seu jeito, e
ninguém ignora que o tempo não volta. Mas é impossível não notar que as
gerações anteriores a dois mil pareciam carregar algo especial: um espírito
coletivo em que o legado principal era a alegria compartilhada. Hoje, muitas vezes,
o que se vê é ilusão barulhenta, gente alucinada, alcoolizada, perdida em
excessos que nada têm a ver com tradição. Pergunta-se: para onde caminha essa
massa de bizarros cegos que cobra direitos sem saber sequer se os possui?
Para reconstruir um carnaval
duradouro, é preciso observar o que realmente funciona. Bandas nem sempre
garantem animação; muita gente fica encostada com latinha na mão, imóvel, ou
soltando fumaça ao ar, enquanto a música toca. Já quando um bloco desce a rua,
surge o harmônico sorriso coletivo. O público assiste, vibra, assim que termina
o desfile os pais pega os filhos pelas mãos e volta para casa contente,
comentando cada detalhe.
Os que permanecem depois, em
geral, são os que exigem vigilância policial e atenção redobrada dos pais,
receosos de que a noite termine mal e o filho se lambuze como porco em
chiqueiro de barro.
Quanto às conduções musicais,
urge resgatar a essência do carnaval cassiense — do jeito que o mineiro
aprecia. Em tempos em que muitas letras são depreciativas, machistas ou
violentas, cresce o anseio popular por marchinhas, sambas e canções que
preservem identidade e respeito.
Bandas que chegam
descaracterizando ritmos e estilos acabam alterando o caráter original dos
blocos, tornando-os irreconhecíveis, distantes de sua natureza inicial.
É preciso compreender que o
sucesso de qualquer festa depende, antes de tudo, da presença e da adesão
sincera das pessoas. Quando a população não concorda com os rumos tomados, o
sensato é ouvir, ajustar, corrigir e, se necessário, retornar ao que antes satisfazia
a todos. Para isso, é indispensável escutar quem mantém acesa a chama dessa
tradição: os blocos e os foliões.
Sem os blocos, o Carnaval é
morto. Eles são o coração pulsante, a biografia viva e a garantia de
continuidade dessa manifestação cultural cassiense. Onde há bloco descendo a
rua, há memória, há identidade e há povo. E enquanto houver povo disposto a
sorrir ao som de um tamborim, sempre existirá esperança de que o verdadeiro
carnaval — aquele de alegria limpa e alma leve — renasça outra vez.

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