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sábado, 31 de janeiro de 2026

QUANDO A EVOLUÇÃO ESQUECE A CIDADE

 

QUANDO A EVOLUÇÃO ESQUECE A CIDADE

 

Vou falar de um episódio que aconteceu comigo pouco tempo depois do início do calçamento do novo estacionamento da Praça Juscelino Kubitschek. Certo dia, em frente ao Papa Lanche, observei que, com o simples peso de uma caminhonete, uma das pedras que estavam sendo colocadas no calçamento já havia se soltado. Aquilo me chamou muita atenção. A partir dali, passei a observar com mais cuidado o serviço que está sendo feito por toda a Praça.

Confesso que me deu uma tristeza enorme, mas fazer o quê? Dizem que é a tal da modernização. Porém, uma modernização nada adequada. As pedras de mosaico português, que estavam adormecidas em seus devidos lugares desde o ano de 1961, estão sendo praticamente arrancadas com máquinas, sem o menor cuidado com a história e a identidade do local.

O que mais revolta é que, apenas dois anos antes, a Câmara já havia gasto uma verdadeira fortuna — pelo menos para quem é pobre — em um pequeno calçamento feito com pedras portuguesas atrás do prédio. Um serviço malfeito, de gosto duvidoso, que ficou uma porcaria. Misturaram pedras pretas com brancas, jogaram marrom no meio, tudo sem critério algum. Um verdadeiro desrespeito estético e histórico. Uma carniça!

Ainda fizeram outro trabalho: instalaram postes e novas lâmpadas em torno da citada praça. Mais gasto de dinheiro público para, infelizmente, pouco tempo depois, tudo ser arrancado com máquinas. Uma pena!

Para que aquelas pedras de mosaico português fossem assentadas, vieram profissionais de longe, especialistas nesse tipo de trabalho. Não foi algo improvisado. Por isso, elas permaneceram ali por cerca de 65 anos, firmes no solo, bem acomodadas na areia, resistindo ao tempo, ao peso e às mudanças. Diferente das pedras colocadas há pouco tempo atrás, que mal foram assentadas e já estavam se soltando.

Isso mostra claramente a diferença entre um serviço bem-feito, pensado para durar, e outro feito às pressas, sem cuidado e sem respeito pela técnica e pela história. O que existia ali não era apenas um calçamento, mas parte da memória da cidade, algo que atravessou gerações.

Mas vamos deixar isso pra lá, pelo menos por enquanto. Resta aguardar para ver no que tudo isso vai dar. Vendo o serviço que estão fazendo, fui ficando cada vez mais entristecido com aquilo tudo. O que se vê ali, infelizmente, é só porcaria. Eu creio que, se não sabem fazer a arte, não deveriam nem tocar. Arte é coisa séria, exige conhecimento, cuidado e respeito.

A cada dia que eu ia à padaria, passava pela praça e via a imundice que estão fazendo. É um desleixo atrás do outro, sem alinhamento, sem padrão, sem capricho. Aquilo mais parece um improviso do que um trabalho pensado para um espaço público tão importante.

Sabe, aquilo me fez lembrar das nossas brincadeiras de criança. A gente fazia tijolinhos usando latas de sardinha, queimava nas pequenas caieiras e, na imaginação, construía o calçamento da entrada das nossas casinhas. Só que, claro, tudo ficava torto: um tijolinho mais alto que o outro, outro mais afastado, nada alinhado.

Então, para tentar disfarçar, a gente pegava barro e passava entre eles, achando que estava melhorando. Mas, no fim, ficava era pior. E, olhando aquele serviço na praça, a sensação é exatamente essa: um remendo malfeito, tentando esconder erros, mas só deixando tudo mais feio. Agora percebo que aquilo que fazíamos na infância era igualzinho ao assentamento dos tais paralelepípedos que estão colocando na JK. A diferença é que lá era brincadeira de criança; aqui, infelizmente, é obra pública.

E pior: nem são paralelepípedos verdadeiros, daqueles bem trabalhados e talhados. São pedras arrebentadas à força, sem forma adequada, sem acabamento, jogadas no chão como se qualquer coisa servisse.

Mas vamos voltar ao acontecimento comigo na Praça Juscelino Kubitschek. Aquela cena ficou martelando na minha cabeça. Que serviço porco! Não consegui ficar calado. Passei a comentar com alguns conhecidos, indignado com o que estava vendo. Cheguei a falar até com advogados sobre o serviço que está sendo feito na praça.

Um deles me disse algo que achei importante e que merece ser registrado: o vereador é eleito justamente para ver esse tipo de coisa. Seja ele do lado do gestor ou não, tem a obrigação de fiscalizar. Mesmo que a obra seja federal, estadual ou municipal, o vereador tem o direito de acompanhar tudo, apontar erros e questionar gastos indevidos.

Segundo ele, se nada melhorar, o caso pode ser levado até a promotoria, desde que haja provas. Com as provas devidas, a obra pode ser imediatamente paralisada. Foi isso que ele me disse — e confesso que fiquei pensando muito sobre isso depois da conversa.

Algum tempo depois, eu ia novamente à padaria quando, na ponta da praça, em frente à antiga farmácia, vi o vice-prefeito. Talvez estivesse ali observando o serviço ou conversando com alguns pedestres. Ao passar por ele, fui cumprimentado; retribuí o cumprimento e aproveitei para dizer que já havia passado o contato dele para uma deputada, conforme ele mesmo havia me pedido em um encontro que tivemos alguns dias antes.

A partir daí, começamos um papo legal, tranquilo, daqueles de gente que conversa olhando nos olhos, falando das coisas da cidade. O clima era amistoso, sem tensão, apenas uma troca de ideias, como deve ser entre cidadãos e representantes públicos.

Lógico que eu não ia deixar de comentar o que estava martelando na minha mente: aquele serviço malfeito na nossa praça central. Então disse a ele: — Sabe, se vier um canal de televisão aqui e filmar esse trabalho que estão fazendo, vai ser um vexame. Uma coisa malfeita dessas nem pode ser chamada de melhoria.

            Em seguida, indaguei: — Por que estão deixando fazer essa porcariada? Ele, meio sem ação, me respondeu algo mais ou menos assim: — Isso é um serviço feito pela Caixa, e é ela quem dá as cartas.

Aí eu retruquei, sem rodeios: — Ah, não… quer dizer então que, se for para fazer de capim com bosta, vai ser feito assim mesmo?

Completei dizendo que o serviço estava mal-acabado, que parecia não haver profissionais qualificados trabalhando ali, muito menos uma engenharia apropriada acompanhando a obra. E ainda fiz um comentário irônico: — Agora lascou uma beirada  e furou a tampa da bunda, lascou de vez…

            Quando falei isso, um pedreiro — ou talvez ajudante — saiu de onde estava e veio na minha direção, perguntando em tom alterado: — Por acaso cê é alguma coisa aqui na cidade? Respondi, com calma: — Sou um cidadão que paga imposto, vota e ainda vive para ver as imundícies que fazem com o nosso mundo.

Foi aí que ele apelou de vez e perguntou: — Por acaso o senhor entende é pedreiro ou coisa parecida? Então respondi, sem pensar muito: — Já fui oleiro, servente, pedreiro, carpinteiro, eletricista, encanador, pintor, balconista, vendedor do baú, comerciante… e agora tento ser escritor e compositor. Acho que não esqueci de nada, não sei.

Foi então que o vice-prefeito interveio e tomou a palavra, dizendo que a culpa não era do trabalhador. Ele não disse de quem era a culpa, apenas me pareceu que também não estava muito satisfeito com o serviço. Diante disso, o trabalhador voltou para o local do seu afazer, e o clima se acalmou.

Naquele momento, pensei comigo mesmo: meu Pai do céu… Se o vice-prefeito estava ali, ouvindo tudo aquilo, e mesmo assim nada fazia, então realmente não há muito recurso. Ele disse que a responsabilidade era da Caixa, mas isso me deixou ainda mais cheio de dúvidas.

Fico me perguntando: será que existe alguém da Caixa que acompanhe de perto essas construções ou reformas espalhadas pelo país inteiro? Em cada cidade onde há uma obra com amparo da Caixa, será que eles mandam técnicos para vistoriar, fiscalizar e corrigir erros? Sinceramente, creio que não.

Pelo que penso, a Caixa não tem dentro dela setores próprios de construção. A impressão que dá é que a Caixa funciona como um local de liberação de verbas para tudo: ela adianta o dinheiro, repassa os recursos, mas quem executa a obra são outros. Agora, se ela também constrói, fiscaliza e acompanha de perto cada detalhe… aí já não sei. Fica a pergunta.

Pois bem, foi isso que aconteceu comigo na Praça Juscelino Kubitschek, no centro da minha cidade. Tudo por eu talvez ter falado uma verdade que muitos não têm coragem de comentar, ou preferem simplesmente deixar pra lá. Por causa disso, quase levei foi uma na orelha, ali mesmo, no meio da praça, à luz do dia.

Praça essa que acompanho desde criança. Um lugar onde, além de beleza, havia vida de verdade. Ali existiam árvores frutíferas — tamarindo, ingá, jatobá e tantas outras — que faziam parte da paisagem, do convívio e da memória da gente. Árvores que davam sombra, alimento aos pássaros, a nós e história. Com o tempo, foram todas derrubadas e queimadas em fornos de olarias. Uma pena profunda, uma perda que não se repara e que ainda dói em quem viu.

Nesse ponto, é impossível não falar do papel dos vereadores, sejam eles do mesmo partido do gestor ou da oposição. Vereador não é eleito para fechar os olhos, nem para defender obra malfeita por conveniência política. A função principal do cargo é fiscalizar, acompanhar, cobrar e apontar erros, independentemente de quem esteja no comando. Quando isso não acontece, não é por falta de poder, é por falta de vontade.

O que se vê, muitas vezes, são vereadores amarrados por acordos, favores e interesses, fingindo não enxergar o que está escancarado. Defeitos visíveis viram “detalhes”, serviços mal-acabados viram “ajustes futuros”, e o desperdício de dinheiro público vira discurso vazio. Nesse jogo, a fiscalização some, a responsabilidade se dissolve e ninguém responde por nada.

Quando o vereador escolhe o silêncio, ele deixa de representar o cidadão e passa a proteger o sistema. E a omissão, nesse caso, é tão grave quanto o erro da obra. Porque quem tem o dever de fiscalizar e não fiscaliza, autoriza. Quem vê e finge que não vê, concorda. E quem concorda, participa.

Mas parece que a preferência agora é sempre pela chamada evolução. Novos tempos, novas ideias, novas bússolas. Nem sempre apontando para o melhor caminho, mas seguindo em frente, custe o que custar.

Não sou contra melhorias, nem contra o progresso que tanto se anuncia em discursos e placas de obra. Sou contra o descaso institucionalizado, contra a pressa que atropela a técnica e contra a banalização do dinheiro público. Quando se mexe no que é de todos, não se pode tratar o erro como detalhe, nem o improviso como solução. Obra pública não é favor, é obrigação — e obrigação exige competência, fiscalização e responsabilidade.

Uma praça não é um espaço vazio esperando cimento. Ela é memória coletiva, identidade urbana, testemunha silenciosa da passagem do tempo. Cada pedra bem assentada, cada árvore que ali cresceu, cada caminho percorrido por gerações carrega um valor que não aparece em planilhas nem em licitações. Destruir isso em nome de uma modernização mal pensada não é avançar, é empobrecer.

O que mais preocupa não é apenas o serviço malfeito, mas a naturalização dele. É o silêncio de quem deveria fiscalizar, a transferência de responsabilidade, o jogo de empurra entre órgãos e gestores, como se ninguém fosse realmente responsável por nada. Quando tudo é culpa de alguém distante, no fim das contas não é culpa de ninguém — e o erro segue, o desperdício se repete e a cidade perde.

Progresso verdadeiro não nasce do barulho das máquinas, mas da inteligência nas decisões. Não nasce da pressa, mas do cuidado. Não nasce da destruição do que estava funcionando, mas da capacidade de somar passado e presente com respeito. Evoluir não é apagar a história, é aprender com ela.

Se continuarmos aceitando qualquer coisa como melhoria, continuaremos vendo o patrimônio virar entulho, o dinheiro público virar pó e a indignação virar costume. E quando a indignação vira costume, a cidade adoece. Porque uma cidade não se destrói apenas quando derrubam suas praças, mas quando seus cidadãos se calam — e quando falar a verdade passa a ser visto como exagero ou incômodo.

É preciso lembrar que, em uma cidade como a nossa, o gestor não é eleito pela maioria da população total. Somos milhares de habitantes, mas apenas uma parte vota. Há quem não tenha idade, quem não tenha título, quem não compareça às urnas e quem simplesmente não participe. No fim das contas, o gestor vence com o apoio de uma parcela dos eleitores, dentro das regras da lei, é verdade, mas isso não lhe dá o direito de governar apenas para quem o elegeu.

A responsabilidade do cargo é justamente essa: administrar para todos. Para quem votou, para quem não votou, para quem discordou e até para quem se calou. Quando essa noção se perde, surgem o descaso, a obra malfeita, a falta de fiscalização e o silêncio conveniente. E aí a cidade paga o preço.

O problema não é a eleição em si, mas o esquecimento de que o poder recebido não é propriedade, é empréstimo. Um empréstimo dado por toda a cidade. Quando isso é ignorado, a praça vira laboratório de erro, o dinheiro vira desperdício e o cidadão que questiona passa a ser tratado como incômodo.

Mas parece que a preferência agora é sempre pela chamada evolução. Uma evolução mal compreendida, que confunde modernizar com arrancar, substituir e apagar. Tudo o que resiste ao tempo passa a ser tratado como atraso, mesmo quando provou, por décadas, sua durabilidade e seu valor. Em nome dessa pressa de mostrar serviço, o que era sólido vira obstáculo, e o que é improvisado passa a ser apresentado como novidade.

Essa forma de “evoluir” não nasce do planejamento, nem do diálogo com a cidade, nem do respeito à história do lugar. Ela nasce da pressa, da vaidade administrativa e da falta de compromisso com quem vai conviver diariamente com o resultado da obra. O discurso é sempre bonito, mas a prática revela calçadas tortas, acabamentos malfeitos e decisões tomadas sem critério técnico ou estético.

O problema não é mudar, mas mudar sem saber por quê, nem para quem. Quando a evolução ignora a memória coletiva, ela deixa de ser avanço e passa a ser ruptura. A cidade perde referências, perde identidade e passa a se parecer com qualquer outra, sem alma e sem história. O espaço público deixa de acolher e passa apenas a ocupar espaço.

No fim, não é só a praça que sofre. Sofre o cidadão que observa, que questiona e que se importa. Sofre quem viu aquele lugar nascer, crescer e resistir ao tempo. Porque evolução de verdade não destrói o que funciona, não despreza o que foi bem-feito e não trata o patrimônio comum como material descartável.

E quando a cidade aceita esse tipo de mudança como normal, algo se quebra de forma silenciosa. Quebra-se o vínculo entre o passado e o futuro, entre o poder público e a população. O que sobra é um vazio difícil de explicar, mas fácil de sentir. E esse vazio não se resolve com mais obras, mais discursos ou mais placas — resolve-se com responsabilidade, respeito e consciência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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